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Entre fé e diversidade, Festa da Chiquita chega aos 50 anos

Por: Tahís Cristine e Caio Sena

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Imagem: Junior Wanzeler

Na cidade de Belém, o Círio de Nazaré é marcado por diferentes formas de demonstração de fé, cultura e identidade paraense. Entre as celebrações que acontecem nesse período, a Festa da Chiquita ocupa um lugar particular: realizada tradicionalmente na noite da Trasladação, na Praça da República, a celebração reúne música, performances artísticas e diversidade. Em 2026, a festa celebra seu jubileu de ouro (50 anos de existência), conforme o marco comemorativo anunciado pela organização, reafirmando uma trajetória marcada pela resistência e pela luta por visibilidade na cultura paraense. 

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A história da Chiquita remonta à década de 1970, quando grupos de artistas, estudantes e pessoas LGBTQIAPN+ começaram a organizar encontros e cortejos nas ruas da capital paraense. Idealizado pelo sociólogo carioca Luís Bandeira, o evento surgiu como uma forma de manifestação em uma época marcada pela repressão da ditadura militar e pelas restrições à expressão pública de identidades que fugiam às normas sociais daquele período. Inicialmente conhecida como “Filhas da Chiquita” ou “Festa da Maria Chiquita”, a celebração se consolidou, a partir de 1978, no entorno do Bar do Parque, na Praça da República.

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Ao longo dos anos, a festa passou por transformações e ganhou novas dimensões culturais e políticas. Desde a década de 1990, sob a coordenação do artista Eloi Iglesias, tornou-se também um espaço de valorização da arte, da expressão de gênero e da diversidade sexual. Shows, performances, concursos e premiações passaram a integrar a programação, que reúne artistas, moradores e visitantes durante a quadra nazarena. 

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Imagem: Junior Wanzeler

Enquanto milhares de fiéis participam das procissões em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, a celebração apresenta outra forma de vivenciar esse momento, articulando manifestações culturais, sociabilidade e expressões de fé. A relação entre o sagrado e o profano é uma das questões presentes na história da festa. Para parte de seus participantes, a Chiquita também representa uma maneira de prestar homenagem à padroeira dos paraenses, sem abrir mão de suas identidades e formas de expressão.

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Essa relação com o espaço público aparece na experiência de Jéssica Marajoara, mulher travesti de 45 anos, ativista LGBTQIAPN+, integrante do Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia (GRETTA), trabalhadora sexual e comunicadora. Frequentadora da Festa da Chiquita há cerca de nove anos, ela conta que sua primeira experiência aconteceu durante seu processo de transição.

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“Minha primeira experiência foi há uns nove anos atrás, eu tava em transição. Pra mim foi tudo muito novo, tudo surreal”, relata Jéssica.

Imagem: Rayane Ferreira

Ela também destaca a relação entre a festa e o território onde trabalha, lembrando que a experiência de estar naquela região durante a celebração marcou sua trajetória e contribuiu para sua aproximação com o ativismo.

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“Viver isso à noite, aqui nessa área do centro da cidade, que é uma área de trabalho sexual. E aí é meu território, isso me marcou de lá pra cá, me colocou nesse ativismo”, explica a comunicadora.

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Mais do que uma programação artística, a celebração se consolidou como um espaço de encontro, expressão e convivência para pessoas de diferentes identidades de gênero e orientações sexuais.  Em uma sociedade na qual essa população ainda enfrenta discriminação e violência, ocupar um espaço público tradicional de Belém também adquire significado político, como uma forma de afirmar o direito à cidade, à cultura e à livre expressão.

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A relevância da Festa da Chiquita também se manifesta no reconhecimento institucional. Em 2020, a Lei Estadual nº 9.025 declarou o festejo Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Pará. A medida reconhece a importância de preservar manifestações que integram a memória, os costumes e as formas de expressão da população paraense.​

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A comemoração dos 50 anos, em 2026, representa uma oportunidade de revisitar essa trajetória e refletir sobre o papel da festa na construção da memória cultural de Belém. Para Jéssica, a expectativa para os próximos anos é que a celebração continue promovendo respeito e inclusão, sem perder a alegria e a irreverência que marcam seus encontros.


“O que nós queremos, no mínimo, é respeito, mais inclusão, alegria, muito leque, gente bonita. E, no mais, bora viver da Chiquita, porque só quem aproveita tá vivendo agora”, afirma. 

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Movida por essa essência, a Festa da Chiquita vem acompanhando o Círio ao longo das décadas, reunindo diferentes manifestações culturais, artistas e histórias que fazem parte de sua trajetória.

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