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​“A morte da floresta é o fim da nossa vida” — Cúpula das Infâncias coloca crianças como protagonistas no debate sobre o clima​​

Por: Anna Mescouto, Bianca Portela, Karina Moraes, Priscila Schalken, Raiane Campos e Victor Evangelista

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Imagem: Bianca Portela

Diferentes gerações puderam participar da COP-30 de alguma forma e trazer os desafios e consequências climáticas enfrentadas por elas, e o crescimento de uma pauta importante: o papel das crianças na causa ambiental. Com essa temática em mente, foi organizada e implementada a Cúpula das Infâncias, um evento em colaboração com a Cúpula dos Povos, ambas realizadas na Universidade Federal do Pará (UFPA).

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Entre os dias 10 e  21 do mês de novembro de 2025, a capital do Estado do Pará, Belém, se tornou sede da 30ª Edição da Conferência das Partes (Conference of the Parts), mais popularmente conhecida como COP-30.

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A cidade recebeu pessoas de diversas regiões do país e do mundo, tendo como destaque presidentes, ministros, embaixadores, entre outros. Contudo, houve também uma representação significativa dos povos amazônidas,  povos tradicionais,  em especial os mais vulneráveis e afetados pelas mudanças climáticas e que, mesmo assim, são desprezados pela sociedade e pela imprensa em massa, trazendo um novo e profundo significado para a realização de um evento global no centro da Amazônia.

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A realização da primeira Cúpula das Infâncias em Belém não foi uma escolha aleatória. A COP-30 ficou conhecida como a “COP da Verdade”, uma edição onde seria demarcada a urgência de superar os combustíveis fósseis para reverter as mudanças climáticas, que já afetam as vidas de crianças, adolescentes e jovens no Brasil e no mundo. Segundo o relatório de 2025,“A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática”, desenvolvido pelo Núcleo Ciência pela Infância, crianças nascidas em 2020 vivenciaram 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,6 vezes mais secas do que as nascidas em 1960.

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Na programação oficial da COP, as atividades relacionadas às infâncias e às juventudes foram limitadas aos dias 17 e 18, o que foi considerado pouco por organizações da defesa da infância, para desenvolver um assunto tão importante e crucial no debate climático. Com a compreensão de que toda discussão sobre meio-ambiente é uma discussão sobre futuros possíveis para as próximas gerações, a Cúpula das Infâncias trouxe a figura da criança como sujeito ativo e central na viabilização de um planeta mais sustentável.

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A pequena Glenda Sá tem doze anos e fez parte do grupo folclórico que dançou na abertura da Cúpulas das Infâncias, usando um figurino que remete às árvores que ficam secas por conta do desmatamento . Natural de Curralinho, na ilha do Marajó, ela veio à capital para participar  das atividades e da construção da Carta das Infâncias. Tudo isso, com a companhia de sua mãe, Rafaela Sá, que acredita na importância de empoderar as crianças como protagonistas do debate climático. 

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“A gente sabe a importância da preservação do meio ambiente, então trazer ela para participar da COP, eu acho que é um momento importante pro crescimento dela. E a gente tá precisando muito disso, que as crianças cresçam com esse pensamento da importância do desenvolvimento amazônico, por que a Amazônia precisa disso, de pessoas que lutem por ela.“ afirmou Rafaela.

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Imagem: Bianca Portela

Reunindo mais de 120 organizações, entidades da sociedade civil e movimentos sociais, a Cúpula das Infâncias nasce com o objetivo de ampliar espaços para ecoar as vozes e necessidades das crianças e adolescentes da Amazônia, do Brasil e do mundo nas discussões de suas problemáticas individuais e coletivas sobre justiça climática.

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Salomão Hage, um dos coordenadores do evento e também professor do Instituto de Ciências da Educação (ICED) da UFPA, lembra que, em uma sociedade em que adultos elaboram propostas e ações para falar sobre meio ambiente e clima, a participação de uma juventude diversa é fundamental para alcançar as diferentes demandas desse público.

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“Numa sociedade adultocêntrica, que nem sempre escuta as vozes das crianças, não considera que elas têm o que contribuir para a transformação, o enfrentamento das desigualdades sociais e da crise climática, conseguimos trazer crianças do Brasil inteiro, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, das periferias urbanas, já construindo suas próprias mobilizações. Elas não precisam de nós para dizer o que querem, precisam do nosso apoio para chegar aqui e ter esse espaço.”, ressaltou.

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Especialmente na Amazônia, região fortemente atingida pelas mudanças climáticas, o protagonismo juvenil em eventos como esse é indispensável. Rita Dias, também coordenadora do evento, reforça esse propósito e reafirma a importância de programações lúdicas para ouvi-los e fazê-los debater sobre o assunto desde os seus primeiros anos de vida.

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“É ouvir, oportunizar a escuta das diferentes realidades das nossas crianças, onde possam discutir os problemas que enfrentam no dia a dia e as propostas que elas têm de enfrentamento a essa questão climática. A gente precisava, através da arte, do esporte, do lazer e da cultura, possibilitar esse momento de escuta qualificada”, destacou ela.

Imagem: Anna Mescouto

A Cúpula das Infâncias focou em destacar as vozes não apenas de crianças e adolescentes, mas também educadores e movimentos sociais como protagonistas na agenda ambiental. A programação do evento buscava refletir esse destaque em atividades culturais, oficinas, mesas de discussão e a criação da Carta das Infâncias.

No meio dessa iniciativa, a participação de voluntários na Cúpula das Infâncias foi crucial para o recrutamento de jovens. Além do apoio na parte de organização, logística e tradução para manter o máximo possível de protagonismo infantil. Para Bruna Martins, uma das voluntárias que atuou no evento, a COP30 e a Cúpula das Infâncias foram uma oportunidade única.

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“Eu escolhi ser voluntária pela Cúpula das Infâncias, porque não é todo dia que a gente tem uma COP30 aqui em Belém do Pará, na nossa capital. Então é uma oportunidade única que a gente tem que aproveitar para conhecer novas culturas, novos povos e fazer esse debate que é tão importante para a nossa sociedade, que é o debate do meio ambiente.”

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A programação principal também contou com o protagonismo de crianças indígenas e ribeirinhas por meio de apresentações culturais (Grupo Içá, percussão). Crianças de todas as idades, de diversos locais, apresentaram suas realidades e desejos a partir de jogos e brincadeiras para expressar suas preocupações com o clima.

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“[...] A gente sabe que a discussão do meio ambiente, ela parte de todas as idades, não tem faixa etária, desde a infância, adolescência, adultos e idosos. Inclui também todas as etnias, todas as identidades culturais, todas as questões socioeconômicas, então não exclui ninguém, esse debate é muito importante. E a maior importância disso tudo é que a gente sabe que o meio ambiente está na mão das crianças, então as crianças são o futuro do nosso país, do nosso mundo.”, comentou Bruna.

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​O objetivo principal da Cúpula das Infâncias foi elaborar um documento final com ajuda de todos os jovens com propostas e exigências aos adultos e governos, como “plantar muitas árvores” e “ouvir as comunidades” para garantir o melhor futuro possível para eles que em breve serão os principais cuidadores do nosso mundo.

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Imagem: Bianca Portela

A Carta das Infâncias foi lida por três crianças que representaram toda a comunidade participante. Breno Cortes, de 16 anos, mora em Eldorado do Carajás, município situado no sul do Pará, e foi um dos oradores. Para Breno, a Cúpula das Infâncias foi um momento fundamental para que as crianças e adolescentes fossem ouvidas e vistas.

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“Eu faço parte do Comitê de Participação da Criança e do Adolescente, e a experiência de participar da Cúpula das Infâncias foi muito importante e muito legal, tivemos várias dinâmicas que mostraram para (essas crianças) os desafios que eles terão que enfrentar, porque queremos um futuro melhor e um presente ativo, porque todas as infâncias importam”, comentou.

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No decorrer da carta, os pequenos denunciam a realidade do cotidiano que enfrentam, com o calor extremo, coisas simples como uma brincadeira de rua passam a ser restritas. A ameaça em territórios, a morte e caça de animais, o desaparecimento de espécies nativas foi proclamado em voz alta, com suplico de alerta nas palavras discorridas. 

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“Tem criança que não consegue brincar no sol, estudar na sala quente, caminhar na rua cheia de poeira. Tem escola que não tem árvores para fazer sombra. Tem bairro onde o vento quase não passa [...] A morte da FLORESTA é o fim da nossa vida.”

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Crianças e adolescentes são o futuro e o presente do mundo, a crise climática afeta a todos, mas principalmente aqueles que já crescem vendo o seu mundo se tornando chamas. Quando a infância se torna luta, medo e insegurança, a humanidade cai em ruínas. É dever da sociedade garantir os direitos de saúde, alimentação, educação, lazer, cultura e dignidade das crianças, e isso começa na luta climática.

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Imagem: Bianca Portela

Romper o ciclo de violações e o silenciamento contínuo dessa pequena-grande comunidade não é uma tarefa simples.  É o que aponta Taissa Kambeba, liderança indígena do povo Omágua/Kambeba, localizado no médio rio Solimões, no estado do Amazonas. Para ela, a realização de espaços como a Cúpula das Infâncias é fundamental, pois demonstra que ainda existem lideranças dispostas a ouvir a juventude e suas demandas. “Que querem ouvir as nossas crianças, o que se passa pela cabeça de uma criança e as preocupações sobre as mudanças climáticas. Sou ativista do movimento indígena, contra a mudança climática e eu incentivo as crianças da minha comunidade, sabe? Porque eu sei o quanto é difícil ser escutada. Eu sei o quanto é difícil a luta pelo que a gente faz hoje”.

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Outro exemplo de quebra do ciclo de apagamento das infâncias nos espaços políticos e sociais é a trajetória de João Victor Costa da Silva, conhecido no meio ativista como João do Clima. Natural da ilha de Caratateua, ou Outeiro, em Belém do Pará, ele iniciou sua atuação a partir de uma mobilização comunitária para a retirada de um lixão localizado em frente à sua rua. Com apenas 16 anos, João – que é conselheiro jovem do UNICEF Brasil – foi impulsionado pelo movimento comunitário de base, nascendo a partir de uma mobilização com jovens e adultos e grande parte dos moradores para a retirada de um lixão de sua comunidade, localizado em frente à sua rua.

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Ele relata que essa experiência foi decisiva para sua entrada em espaços de negociação e decisão sobre os impactos climáticos. Segundo ele, a participação ativa de crianças e adolescentes na agenda ambiental passa pela forma como o tema é comunicado. “Eu acho que como a gente pode impulsionar a juventude, é falando de jovem para jovem, de adolescente para adolescente. Porque esse termo mudança climática ou crise climática ainda é muito complexo e é muito adultizado. Então acaba não chegando na juventude. E quando o adolescente fala, fala para os jovens, e a gente sabe o termo e a linguagem que vai cativar, vai conseguir inspirar eles, aí muda tudo”.

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Durante a Cúpula dos Povos, diferentes grupos sociais também estiveram à frente de manifestações, entoando a frase que ganhou força na semana em que Belém sediou a COP-30: “A resposta somos nós”. Em meio aos atos, as infâncias deixaram claro que não apenas fazem parte dessa resposta, mas que também representam o futuro das decisões climáticas – o futuro do planeta.

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