
Imagem: Allana Silva
Cabanagem: o que a maior revolta popular nos ensina hoje?
Por: Amanda Ferreira e Astra Viana
Em comemoração aos 409 anos de Belém, o grupo de teatro "Encenação Cultural do Pará" apresentou durante o mês de janeiro desse ano a peça "Cabanos: Uma Viagem no Tempo", uma encenação que homenageia e relembra um evento marcante da história paraense: a Cabanagem.
A produção foi dirigida por Fernando Matos, líder do grupo, e apresentada durante os dias 11, 12 e 19 de janeiro no teatro Gasômetro, na capital paraense. A encenação representou com cenas de drama, romance e ação a luta da população do Grão-Pará contra os líderes políticos da época.
Em entrevista para o programa da Rádio Web da Universidade Federal do Pará "UFPA Entrevista", o diretor explicou que a motivação dele para a peça aconteceu quando ele percebeu que não se tinha uma produção teatral falando sobre esse evento histórico, podendo conhecê-lo somente em livros de história. Na mesma entrevista, ele diz: "[...] você saber a tua história, saber as tuas raízes, saber aquilo que aconteceu com o povo antigamente, isso te dá uma sugestão de apoderamento, de você ter o orgulho, a condição de dizer 'eu sou paraense', sabe? [...]"
A Cabanagem, ou Guerra dos Cabanos, foi uma revolta popular que iniciou no dia 6 de janeiro de 1835, na província do Grão-Pará; o movimento é considerado o único em que os revoltosos assumiram plenamente o poder político e a gestão local. A rebelião reuniu diferentes setores da sociedade em sua disputa, como fazendeiros e comerciantes, representantes da elite, que buscavam preservar seus próprios interesses e almejavam poder político, assim como a população mais fragilizada, formada por indígenas, pobres livres e negros, que viviam em cabanas à beira dos rios e originaram a denominação de cabanos a seus revoltosos.
O movimento foi fulminado pela revolta da população fragilizada que vivia em situações de miséria somada à crise política instaurada no país após a abdicação de Dom Pedro I. Os principais nomes durante a revolução, dos cabanos e lideranças, são Clemente Malcher, os irmãos Vinagre, Eduardo Angelim e Batista Campos, situados na capital e em zonas rurais, e eles que organizavam um levante para depor o governo estabelecido.
Em entrevista para o documentário "Cabanagem: O levante da Amazônia", a historiadora Magda Ricci explica com mais detalhes como a revolução se deu nos interiores: "A gente tem a impressão de que quando aconteceu a Cabanagem, aqui era o centro e depois houve uma disseminação. Na realidade, o que houveram foram ondas revolucionárias. Nós tivemos uma onda em 1833 que veio do interior, uma maior ainda do Acará, em Moju, em 1834. […] Então, essa segunda ou terceira grande onda revolucionária, que foi a de janeiro de 1835, ela é uma resposta ao que veio desses interiores e algumas pessoas dizem que veem desde a época da Independência. […] A partir de janeiro para fevereiro de 1837, a luta vai se interiorizar bem mais e vai começar a pegar as calhas dos rios que chegam ao médio amazonas, subindo também pelo alto amazonas, se tornando uma luta bem diferente. Essa é uma guerra que a gente pouco estudou e pouco entendeu até agora, mesmo resistindo bravamente."
As batalhas nos interiores durante a revolta não cessaram mesmo depois da chegada das esquadras imperiais para conter os cabanos anos depois e os revoltosos organizaram-se para novamente retornar a capital e assumir o poder. O Terceiro Governo Cabano é instaurado quando as tropas da resistência, que tinham a sua frente Eduardo Angelim e Antônio Vinagre, conseguem expulsar as forças da regência e posicionam, em novembro de 1835, Angelim como o último presidente cabano da província.
O Império brasileiro, sob o comando do brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andréa, chega a Belém em maio de 1836 e toma a cidade após lidar com cabanos já enfraquecidos, que são derrotados e duramente reprimidos pelas tropas. O grupo cabano continua sua resistência até o ano de 1840, quando, por fim, são eliminados os últimos focos de resistência e encerrando o movimento. Estima-se que mais de 30 mil pessoas foram mortas durante os conflitos, assim como aldeias indígenas inteiras teriam sido dizimadas durante a Cabanagem.
Por: Priscila Schalken
Por: Anna Mescouto, Bianca Portela e Astra Viana


