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Radioactive transforma a história de Marie Curie em um drama visual ambicioso, mas irregular

Por: Tahís Cristine

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Imagem: Web

Lançado em 2019 no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Radioactive é dirigido pela cineasta Marjane Satrapi (indicada ao Oscar pelo longa de animação Persepolis) e roteirizado por Jack Thorne, conhecido por trabalhos como Enola Holmes. Baseado no romance gráfico homônimo de Lauren Redniss, o filme foi posteriormente distribuído em 2020 em plataformas de streaming – Prime Video nos Estados Unidos e Netflix em outros países, incluindo o Brasil. A produção é estrelada por Rosamund Pike (Garota Exemplar) no papel principal de de Marie Curie, ao lado de Sam Riley (Malévola) e Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha).

 

A narrativa acompanha a trajetória da cientista polonesa Marie Curie, pioneira no estudo da radioatividade, a primeira mulher a conquistar um Prêmio Nobel e, até então, a única a receber o prêmio em duas áreas científicas diferentes: Física e Química. No longa, Marie, ao lado de seu marido, Pierre Curie, desenvolve estudos fundamentais que levaram à descoberta de dois elementos químicos (o rádio e o polônio), abrindo caminho para avanços significativos na medicina, especialmente no tratamento de doenças como o câncer.

 

O filme também evidencia os obstáculos enfrentados por Marie em um contexto histórico marcado pela exclusão feminina no meio acadêmico. Impedida de estudar em seu país de origem, a cientista muda-se para Paris, onde ingressa na Universidade de Sorbonne e passa a desafiar as estruturas sociais e científicas de sua época. Sua trajetória se consolida como símbolo de resistência e emancipação feminina, ao ocupar espaços historicamente restritos aos homens e demonstrar que a produção científica não está condicionada ao gênero.

 

Ao longo da narrativa, acompanhamos não apenas suas conquistas profissionais, mas também aspectos de sua vida pessoal, como o relacionamento com Pierre Curie, a maternidade e os desafios enfrentados após se tornar viúva. O longa também aborda o impacto da exposição à radioatividade em sua saúde, consequência direta de suas próprias descobertas, cujos riscos ainda eram desconhecidos à época.

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Do ponto de vista técnico, Radioactive apresenta uma proposta de construir uma biografia sensorial, não só factual. Esteticamente, a direção de fotografia de Anthony Dod Mantle aposta em uma paleta de cores frias e desaturadas, com o uso expressivo de luzes esverdeadas que remetem à radioatividade.

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Esse recurso visual contribui para construir uma atmosfera densa e, por vezes, claustrofóbica, traduzindo cinematograficamente o caráter invisível, fascinante e perigoso da radiação, o que traduz bem o isolamento de Marie e a tensão entre descoberta científica e risco. 

 

A trilha sonora, composta por Evgueni Galperine e Sacha Galperine, segue uma linha minimalista e atmosférica, funcionando mais como ambientação emocional do que como elemento narrativo de destaque. Ela é coerente com a proposta do filme, mas pouco memorável. Funciona melhor como suporte do que como elemento protagonista. Em alguns momentos, poderia ter assumido mais protagonismo para reforçar os conflitos internos da protagonista.

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No entanto, é na construção narrativa que o filme encontra suas principais limitações. Ao optar por uma estrutura fragmentada e não linear, a diretora intercala a trajetória de Marie Curie com sequências que projetam o futuro de suas descobertas, incluindo episódios como tratamentos médicos e avanços na medicina, mas também as bombas nucleares como Hiroshima e Chernobyl, o que contribui deixar a obra fragmentada e emocionalmente distante. Embora essa escolha busque evidenciar o legado ambíguo da radioatividade, enfatizando as consequências futuras de seu descobrimento, essa característica tende a comprometer a fluidez da narrativa e enfraquece a imersão do espectador, criando rupturas que dificultam o envolvimento emocional com a personagem da cientista que descobriu a radioatividade e mudou a ciência.

 

Essa tentativa de transformar a cinebiografia em uma experiência sensorial e reflexiva revela uma ambição estética relevante, mas nem sempre plenamente realizada. O filme oscila entre o drama biográfico tradicional e uma abordagem mais lúdica e fictícia, o que resulta em um ritmo irregular e em uma superficialidade no desenvolvimento de conflitos importantes, como o preconceito enfrentado por Marie, sua relação conjugal e sua dinâmica familiar.

 

As atuações, por outro lado, ajudam a sustentar o filme. Rosamund Pike entrega uma personalidade forte e que exala confiança, construindo uma Marie Curie complexa, marcada por sua determinação, frieza emocional e obsessão pelo trabalho. Sua performance evita idealizações excessivas e contribui para uma representação mais humana da cientista. 

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Anya Taylor-Joy, apesar do tempo reduzido em cena, quando aparece se destaca ao interpretar Irène Joliot-Curie, filha mais velha do casal Curie, estabelecendo uma relação sensível com a personagem da mãe. Já Sam Riley, no papel de Pierre Curie, apresenta uma atuação mais apagada, prejudicada pela pouca profundidade do roteiro em relação ao personagem.

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Dessa forma, Radioactive se configura como uma obra que, embora relevante ao retratar a importância histórica e científica de Marie Curie, apresenta fragilidades em sua construção narrativa. O filme acerta ao propor uma abordagem estética diferenciada e ao reforçar o impacto duradouro das descobertas da cientista, mas falha em equilibrar essa proposta com o desenvolvimento dramático necessário para envolver plenamente o público.

 

Mais do que uma biografia cinematográfica convencional, o longa se posiciona como uma reflexão sobre os limites e consequências da ciência. Ainda assim, ao privilegiar a ideia em detrimento da emoção, acaba se tornando uma experiência mais interessante do ponto de vista conceitual do que propriamente envolvente enquanto narrativa cinematográfica.

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