top of page
c6604473424d30885f675fd58a1a11c3.jpg

O Agente Secreto enquadra um Brasil que insiste em ser lembrado

Por: Junior Wanzeler

Na próxima noite de domingo (15/03), o Brasil se reúne em clima de Copa do Mundo em frente à TV, celular, monitor ou qualquer que seja a tela para torcer mais uma vez pelo filme que representa nosso país na cerimônia do Oscar, e neste ano o nosso cinema está devidamente representado em 4 categorias do careca de ouro - incluindo Melhor Filme Internacional e a categoria principal de Melhor Filme - com o longa O Agente Secreto, ficção histórica do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que retrata uma Recife (PE) de 1977 marcada por repressão, carros coloridos, pernas cabeludas, tubarões e muita pirraça.

 

A trama acompanha Marcelo Alves, vivido por Wagner Moura, um professor universitário que, por razões misteriosas, está fugindo de São Paulo e procura refúgio em sua cidade natal, Recife, na semana de carnaval. O que Marcelo ainda não sabe é que, enquanto busca registros de sua mãe e tenta encontrar uma maneira de fugir do país com o seu filho Fernando (Enzo Nunes), o seu nome é alvo de uma perseguição política motivada por conflitos antigos de seu passado com um empresário aliado ao regime militar.

 

Essa pequena sinopse, somada ao título do filme, vendem a ideia de uma trama de suspense, recheada de mistérios, perseguições e conflitos armados - como é de costume em filmes de espionagem hollywoodianos - no entanto, embora existam elementos assim respingados modestamente no decorrer da história, KMF subverte as expectativas e brinca com o próprio gênero que faz referência, utilizando toda sua bagagem referencial do cinema setentista, seja estrangeiro ou nacional, para enquadrar o que o filme realmente pretende discutir: a memória coletiva e individual de um povo que constantemente é induzido ao esquecimento de sua própria história.

 

Eu sei, esse não é o primeiro e nem será o último texto que você vai ler sobre o tema da memória em O Agente Secreto, ou em outros filmes que discutem o apagamento a partir da ferida deixada pelo longo e perverso período da Ditadura Cívico-Militar na História do Brasil. No último ano, inclusive, comemoramos com razão a vitória no Oscar de Melhor Filme Internacional de Ainda Estou Aqui, filme de Walter Salles inspirado no livro de mesmo nome de Marcelo Rubens Paiva a partir das memórias de sua mãe do trauma deixado pelo assassinato de seu pai, Rubens, pelo regime militar. A comparação entre os dois filmes foi inevitável, mas existe uma distância quilométrica - tanto geográfica quanto temática - entre eles.

 

Enquanto Ainda Estou Aqui aborda a memória como ausência que, independente do tempo, não pode ser preenchida e ecoa de um trauma causado pela violência, O Agente Secreto, a partir da relação de Marcelo com a falta de registros de sua mãe, e em Fernando sem nenhuma recordação do pai, aborda a memória não como lembrança, mas esquecimento. Assim como o corpo do início do filme, sem rosto, sem nome e sem história, a memória desses personagens é apagada sem a chance de deixar qualquer lacuna de sua ausência.

 

A jornada de Marcelo, que na verdade é Armando, e os diversos outros rostos que cruzam e integram seu caminho - pois esse filme é, acima de tudo, sobre o coletivo -, como a encantadora dona Sebastiana de Tânia Maria e seu Alexandre vivido por Carlos Francisco, exploram um lugar que é frequentemente apagado nos retratos sobre a ditadura. Marcelo, um pesquisador do nordeste, vê o seu trabalho e de seus colegas ser retirado do radar por um sistema que enxerga o seu lado do país como errado, indigno de atenção e de investimento. O discurso de ‘deixem o que é importante para o Brasil de verdade, vocês ficam com o regional’ reflete tanto no conflito central da trama quanto também de maneira metalinguística: é o filme falando pra gente como funcionava e ainda funciona as estruturas de desigualdade no país, inclusive - e sobretudo - na indústria cinematográfica, com altos orçamentos e divulgação centralizados em produções do eixo sul-sudeste. Além disso, o texto de KMF fez bem em relembrar a existência do “civil” na Ditadura Cívico-Militar, pois o empresário Henrique Ghirotti (interpretado por Luciano Chirolli) representa esse setor empresarial que se beneficiava diretamente com a corrupção sistematizada pelo regime.

 

O tema da memória e apagamento já é comum na filmografia de Kleber Mendonça Filho. No seu último filme, o longa documental Retratos Fantasmas (2023) - que serviu de pesquisa para O Agente Secreto -, Mendonça aborda e relata sua relação direta com o centro histórico de Recife e seus cinemas de rua. Enquanto no documentário o olhar para a cidade é centralizado na visão e afetos do diretor, aqui Recife ganha um recheio de pluralidade. A cidade é viva, pulsante, com seus carros coloridos antigos, cinemas de rua lotados e letreiros de clássicos dos anos 70, quase como um retrato autêntico daquela época. A recriação histórica feita pela direção de arte de Thales Junqueira é um verdadeiro espetáculo para nostálgicos, mas também é notável o mérito da fotografia de Evgenia Alexandrova e da direção do próprio Kleber, que simulam uma estética própria, não apenas do período histórico mas também fazem referência ao próprio cinema produzido na época. As cores saturadas, imagem granulada, transições de cena extravagantes tal qual Star Wars e foco dividido como no cinema de Brian De Palma remetem ao imaginário e a atmosfera construída pelos sucessos exibidos no período retratado. Tudo isso contrasta com o final ambientado no presente, que possui um visual sóbrio e contido.

 

O final, inclusive, foi o que mais gerou controvérsia entre os espectadores, pois alguns argumentam que a quebra abrupta da perseguição de Marcelo para o presente, com a informação de que ele havia sido assassinado sem mostrar como, foi um verdadeiro anticlímax. Eu, no entanto, enxergo como o ponto que define a mensagem do filme sobre memória e apagamento. Fernando adulto, vivido também por Wagner Moura, que não por acaso tem o rosto do pai que não conheceu de verdade e não lembra dele, mas mesmo com toda essa ausência, é possível apagar tudo? É possível apagar um cinema construindo um hospital por cima quando ainda tem um menino que insiste em lembrar o que sentiu quando viu, pela primeira vez, Tubarão em seu telão?

asdsad_edited.jpg

Por: Karina Moraes

O Guajará, desde 2025

bottom of page