
“Manas” rompe o silêncio e simboliza a resistência feminina na Amazônia
Por: Karina Moraes
A obra é, ao mesmo tempo, um engolir em seco e um grito de denúncia ao cotidiano de muitas mulheres que lutam por suas vidas e para apoiar outras manas.
"Obrigada a todas as manas do marajó por terem coragem de nos contar suas histórias"
Dirigido e produzido por Marianna Brenannd, importante cineasta e documentarista brasileira em seu primeiro longa-metragem de ficção (infelizmente, nem tão ficcional assim), e com roteiro de Marcelo Grabowsky, Felipe Sholl e outros, "Manas" é um novo longa trilhado no Pará aclamado da crítica, sendo aplaudido nacionalmente e internacionalmente por sua sensibilidade e detalhismo na humanidade, força feminina e respeito aos corpos e regionalidades da ambientação da obra.
A trama acompanha a vida de Marcielly (Tielly), de 13 anos, que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, no Pará, junto com seus pais e seus 3 irmãos mais novos. A protagonista, vivida pela atriz paraense Jamilli Correa, precisa lidar com os acontecimentos do fim da infância e com as violências silenciosas (e outras nem tanto) do ambiente que nasceu, onde recebe pouca orientação, estrutura financeira e visão simplificada de mulheres enquanto provedoras de um lar com filhos ou vítimas da perversão masculina. Tielly busca incessantemente entender os novos rumos da vida da irmã mais velha, Cláudia, um sumiço "repentino" que logo é entendido, ao iniciar sua luta em quebrar um padrão de silenciamento de dores e salvar sua irmã mais nova, "Carolzinha" desse ciclo.
Sendo apoiado por nomes prestigiados como Walter Salles, no papel de produtor associado, "Manas" já recebeu mais de 20 premiações e reconhecimentos desde sua estreia mundial em agosto de 2024, no Festival de Veneza. Entre suas premiações, estão o GDA Director's Award, principal prêmio da Giornate Degli Autori, uma das mais importantes mostras do Festival de Veneza, que destaca obras autorais e cineastas emergentes com visões inovadoras. Também recebeu em festivais como os de Istambul e São Francisco, além de sua mais recente, no último domingo (18), em que Brennand foi homenageada pelo prêmio Women In Motion Emerging Talent Award 2025, durante o Festival de Cannes, que enaltece mulheres com carreiras promissoras dentro do cinema.
"Manas" é um filme de silenciamento, opressão e desigualdade, mas de luta, muita coragem e da força feminina paraense. Indo contra a enorme onda de sensacionalismos em relação às meninas marajoaras, muito propagadas nacionalmente em 2024, com lançamento próximo ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (18 de maio), e feito por uma mulher, é notável o tratamento de uma violência tão grave e sensível, de uma forma cuidadosa e diferente de outros longas que assisti com temáticas semelhantes, que traziam cenas mais explícitas de momentos tão dolorosos e desnecessários à construção narrativa. A obra rompe o esperado e se debruça na tensão visual e sonora, no medo, em cortes abruptos de cenas e subentender-se o que é a rotina de muitas meninas dali. Para quem conhece pouco sobre a realidade amazônica e seja acostumado com produções mais imediatistas, talvez se sinta pouco estimulado pelos primeiros 30 minutos da obra, mas que pra mim foram inteligentemente importantíssimos, pois te imerge profundamente no cotidiano de muitas famílias ribeirinhas antes de inserir o drama pessoal de Marcielly.
Nos traz essa dualidade da imensidão de quem tem o rio como sua rua: ao mesmo tempo, Tielly, que observa o rio e as balsas vindas de outros lugares como uma oportunidade ou vastidão de maneiras de salvar a si, sua família ou apenas, saber o destino da irmã, esse espaço é colocado a ela enquanto uma das únicas alternativas de cotidiano, em que outras mulheres também se calaram antes por omissão estatal somadas aos obstáculos financeiros, emocionais e estruturais, impostos nos discursos familiares e doutrinada pela igreja tradicionalista "Se você tem um problema em casa, aceite e ore!" Será mesmo?
Desenvolvendo-se a partir de diálogos reais com mulheres marajoaras, é possível perceber que a narrativa vai muito além de mostrar o acontecimento da grande violência, mas das pequenas dores que, muitas meninas e mulheres sofrem, geracionalmente, aliadas à falta de acesso ao básico, do sustento familiar ao entendimento do próprio corpo. É possível observar o forte trabalho na abordagem das microviolências, que vão alterando aos poucos a convivência familiar. Sente-se a dor junto. O silêncio que anseia liberdade e as tentativas de quebrar com os padrões de violência em situações sutis são frutos de uma atuação arrebatadora da protagonista Jamilli Correa, que apesar da inexperiência com as câmeras, foi primordial na representação da força feminina amazônica, na tentativa de salvar sua irmã mais nova desse ciclo.
Ressalta-se também a grandeza do papel de Dira Paes como delegada Aretha, que brilhantemente foi esse lar acolhedor para mostrar que Tielly não estava sozinha, além da importância de ensinar habilidosamente a ela sobre o próprio corpo e os limites do contato físico respeitoso. Para questões técnicas, se mostra apreciadora dos pequenos detalhes das vivências paraenses, desde sua fotografia formidável, melancólica e imersiva do colorido amazônico, que transitam entre a imensidão da floresta e o isolamento entre os rios e igarapés que os rodeiam, até os pequenos costumes e dialetos desenvolvidos desde a infância no Pará, sem falar na trilha sonora de extremo gosto e que é de um saudosismo a clássicos da música paraense.
"Manas" é detalhista, entrega a visão de "manas ajudarem manas", meninas e mulheres lutarem pela vida umas das outras, e é isso que as move e faz com que essa luta seja tão necessária. Marianna finaliza a obra de uma forma conveniente, que é seu maior acerto: Tielly e Carolzinha nos seus olhares carregados e silenciosos, saindo de um silêncio de apagamento para um silêncio carregado de luta. Luta, que deve ir além de um filme ou um dia 18 de maio, carregando consigo a necessidade de acolher e criar ambientes confortáveis para que simplesmente se possa falar sobre. É lembrar que escutar é cuidado, e denunciar é um símbolo de coragem. Não esperava menos de um filme tão premiado, e ainda por cima, protagonizado e ambientado em um cenário paraense, que possui grandes chances de representar o Brasil no próximo Oscar.
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