
Pecadores e a excelência do cinema negro
Por: Tahis Cristine
"Existem lendas sobre pessoas que nasceram com o dom de fazer uma música tão autêntica que pode rasgar o véu entre a vida e a morte, evocando espíritos do passado e do futuro. Na Irlanda antiga, eles eram chamados de 'Filí'. Na terra dos Choctaw, são chamados de guardiões do fogo. E, na África Ocidental, são chamados de 'Griôs'. Esse dom pode trazer cura para suas comunidades, mas ele também atrai o mal".
Lançado em abril de 2025, o filme "Pecadores" conta a história de dois irmãos gêmeos (ambos interpretados por Michael B. Jordan) que retornam à sua cidade natal com o intuito de apagar seus passados conturbados e reconstruir suas vidas. No entanto, ao chegarem lá, eles descobrem que um mal ainda maior está à espreita para recebê-los. Ambientado na região do Delta do Mississippi nos Estados Unidos de 1932, o longa escrito e dirigido por Ryan Coogler (Creed - Nascido para Lutar, 2015; Pantera Negra, 2018) tem influência em histórias reais do período em que o país vivia uma histórica crise econômica (conhecida como a Grande Depressão) e uma forte política de segregação racial e discriminação, entrelaçando esses aspectos para criar uma trama que envolve "vampiros" e "blues". A importância do filme "Pecadores" está na ousadia do diretor em explorar temas profundos como ancestralidade, identidade negra e resistência, abordando críticas sociais através do gênero terror, com forte ambientação cultural representada pela música negra americana. Devido a essa premissa e outros fatores, o longa teve uma excelente recepção tanto da crítica quanto da maioria do público. Elogiado por sua narrativa envolvente, clima sombrio, atuações intensas e direção habilidosa, a obra quebrou recordes de bilheteria para filmes de terror e teve a maior bilheteria de estreia de um filme original dos EUA desde o período da pandemia.
"Pecadores" também obtém êxito em mais um feito: ele solidifica a nova onda do cinema negro americano, marcada por extraordinárias obras de ficção científica e surrealismo como "Corra" e "Nós" (ambos de Jordan Peele), que incorporam questões raciais aos gêneros de terror, thriller e western, trazendo protagonismo para a cultura afro. O filme mergulha na história e cultura afro-americana, utilizando o blues como um elemento central na discussão da resiliência e luta por identidade em meio à opressão de grupos de supremacia racial e violência estrutural. A obra também traz uma mistura de terror psicológico com terror fantasioso e terror real, sendo conduzido por um ritmo mais lento até uma gradativa aceleração no desenrolar dos eventos no segundo ato do filme, o que poderia prejudicar a imersão na história, mas é dirigido com primazia e, por tanto, não atrapalha a cadência e a concentração no que está sendo contado. Utilizando técnica e talento, o diretor consegue envolver cada vez mais o público na obra com excelência.
Analisando os aspectos principais da obra, cabe pontuar a fenomenal trilha sonora conduzida por Ludwig Göransson, que contribui para a atmosfera tensa e emocional do filme em cenas muito significativas, reforçando a todo momento a conexão cultural dos personagens com as suas origens e a resistência da música perante a ameaça sobrenatural e o próprio racismo.
O protagonista merece destaque devido sua atuação exemplar e por conduzir com maestria o duplo papel. B. Jordan consegue expressar nas cenas de interação entre os gêmeos que cada um é uma pessoa diferente com personalidades distintas, o que é essencial para o desenvolvimento do enredo até o clímax e o desfecho da obra. A fotografia do filme também merece atenção. É interessante como Coogler, ao lado do diretor de fotografia Autumn Durald, incorpora costumes e tradições do sul dos EUA na cenografia da obra. A característica que fica mais evidente é o jogo das cores "Vermelho e Azul".
Em cidades como Nova Orleans na Louisiana e em estados sulistas como Carolina do Sul, Geórgia e o próprio Mississippi, existe uma crença popular onde os moradores locais pintavam as portas e janelas de suas residências na cor azul para afastar criaturas da noite como vampiros e fantasmas. Essa tradição vem da cultura "Gullah", uma comunidade constituída por um subgrupo étnico do grupo afro-americano. De acordo com essa crença, os"haints" (como são conhecidas essas criaturas) teriam medo de água e seriam repelidos pelas cores azuladas, que remetem a esse elemento ou até mesmo ao céu. Da mesma forma, o vermelho seria a cor que representa essas criaturas e é responsável por atraí-las aos locais que possuem essa tonalidade.
No filme, existem vários momentos em que esse contraste é retratado, como na cena em que o personagem "Smoke" encomenda a placa de sua danceteria e a atendente avisa que só tem disponível na cor vermelha, fazendo o personagem hesitar e indiretamente revelando o destino que o "Juke Joint" 1 dos protagonistas teria. Os antagonistas do filme, liderados pelo vampiro Remmick (Jack O'Connell), usam da simpatia para disfarçar sua natureza maligna, denunciada pelos tons avermelhados que os iluminam e posteriormente por suas vestes ensanguentadas. Os próprios gêmeos "Smoke" (que usa azul) e "Stack" (que usa vermelho) possuem as cores em evidência nos seus figurinos (créditos à figurinista Ruth E. Carter), apresentando novamente qual final cada irmão receberia. Essa também é uma metáfora que representa a dualidade entre o bem e o mal. Inclusive, a discussão entre bondade e maldade ganha um tom religioso no arco do primo dos protagonistas, o jovem músico conhecido como "Sammie the Preacher Boy" (Miles Caton), que fica responsável pela parte musical da obra e aborda a simbologia do temor religioso contra as formas de expressões artísticas. Naquele tempo, espaços como o bar de blues dos irmãos gêmeos eram vistos como locais do pecado e do demônio pela sociedade religiosa cristã do estado. Outro ponto que merece notoriedade é a atuação das coadjuvantes femininas representadas por Annie (Wunmi Mosaku) e Mary (Hailee Steinfeld), que também trouxeram força e protagonismo feminino à obra, pois elas não apenas auxiliam os protagonistas em suas batalhas, mas também ganham destaque na história e se revelam essenciais para o desenvolvimento de alguns dos principais "plots" das cenas, trazendo também um tom dramático ao longa.
Algumas críticas por parte de uma pequena parcela do público estão relacionadas à expectativa dos mesmos com mais aspectos do gênero de terror, que estão presentes no longa-metragem de forma mais sutil e subjetiva. Isso acontece principalmente pelos espectadores estarem mais acostumados com o popular terror comercial e de massa feito pela indústria cultural, que geralmente é carregado de "jump scares" (sustos repentinos com sons e imagens inesperadas) desnecessários, cenas extremamente gráficas e que possui uma narrativa rasa com personagens pouco complexos. Entretanto, "Pecadores" não se detém apenas a estes aspectos, mas busca ir além do básico contando uma narrativa rica culturalmente e com excelentes críticas sociais. Um exemplo disso é a própria abordagem do "Sobrenatural", que não necessariamente fica preso às criaturas da noite, mas também é retratado no trecho em que a musicalidade do Blues consegue conectar diferentes tempos e dimensões através do seu poder, como uma magia ancestral.
Em resumo, "Pecadores" pode ser considerado um dos maiores filmes de horror do ano e que vai além do entretenimento, oferecendo uma boa reflexão sobre questões sociais, culturais e históricas, tudo isso envolto em uma narrativa cinematográfica cativante, descontraída e original.
Por: Bianca Jansen
Por: Karina Moraes
1 Juke Joint era como eram conhecidos os bares e espaços no limite das cidades, nos quais as pessoas negras e de outras etnias podiam ir dançar, apostar e beber clandestinamente durante o período da Lei Seca.



