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Imagem: Henrique Pimenta

A (re)construção do Mercado de São Brás pelas histórias de afeto dos trabalhadores e frequentadores

Por: Anna Mescouto, Astra Viana e Bianca Portela

Feiras e mercados são organismos vivos, espaços fervilhantes de vida e cor. Para além de locais de comercialização, tornam-se territórios permeados por histórias e afetos, lugares que constroem uma memória coletiva. Da periferia ao centro da cidade, esses espaços, inicialmente criados com intenções mercadológicas, criam vida própria pela quantidade de pessoas que os frequentam diariamente, tornando parte da sua rotina as compras em um ambiente cercado pelo mais diverso conjunto de indivíduos.

É característico de cada bairro, pelo menos na região metropolitana de Belém, a manutenção da sua própria feira. Da feira do Guamá, da Pedreira ou do Jurunas, até as mais famosas, como o Ver-o-Peso e o Mercado de São Brás, que se tornaram patrimônio público e fazem parte da história de uma região. Entretanto, não somente as informações encontradas nos livros de história, em artigos acadêmicos ou na Wikipédia devem ser consideradas para a construção da memória do patrimônio; as narrativas que preenchem e constroem o espaço também são aptas a entrarem em destaque.

Da subsistência às relações afetivas, o Mercado de São Brás é entrelaçado por cronologia popular – narrativas que constroem a memória dos feirantes e, assim como o trabalho com o comércio, fazem parte da identidade desses trabalhadores.

Andrea Marques é uma das trabalhadoras que atua no Mercado de São Brás. Com mais de 22 anos de experiência, Andrea conta que tudo começou com sua irmã, Márcia, que conseguiu um emprego lavando louça em uma das barracas da parte de trás do mercado – a dona da barraca se chamava Morena.

Depois de um tempo, Márcia conseguiu adquirir seu próprio espaço dentro do mercado e, logo depois, a mãe de Andrea, Léia Maria, adquiriu outro. Com isso, o mercado foi ganhando mais uma narrativa ao longo de sua extensão. A família da trabalhadora foi, aos poucos, adentrando a construção. Seu irmão, César, chegou para ajudar nas responsabilidades em um período em que Márcia estava com crianças pequenas e a mãe já alcançava a terceira idade.

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Por: Priscila Schalken

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Foto: Andrea Marques por Henrique Pimenta

Nesse período, Andrea conta que nem sonhava em trabalhar por lá. Porém, após se afastar de seu antigo trabalho e enfrentar complicações familiares, ela começou a rotina aos poucos e, quando se deu conta, já estava atuando com frequência no box.

Ela relata que muitos familiares e outras pessoas trabalharam no local antes dela, mostrando que o espaço percorreu um longo caminho até chegar onde está hoje, e afirma ser muito grata por tudo. O nome do box, “Andrea”, veio de seu próprio nome após o recadastramento dos espaços.

A grande construção histórica, localizada no bairro de São Brás, em Belém do Pará, evoca, em cada canto, uma marca do tempo e das pessoas que lhe tornaram viva. Construído no auge do ciclo da borracha, pelo engenheiro italiano Filinto Santos e muitos trabalhadores da região paraense, o Mercado nasce inspirado em modelos de construções francesas do período.

Na época , o mercado do Ver-o-Peso, maior feira a céu aberto da América Latina, era um dos únicos polos comerciais da cidade, com isso o local nasce com o objetivo de descentralizar as atividades, tornando-se um grande centro de transações comerciais e, mais importante, um espaço de interação, memória e afeto.

No ano de 1982, o Mercado de São Brás foi tombado pelo Departamento de Patrimônio Histórico Artístico, uma forma de protegê-lo e destacá-lo por sua enorme importância não só histórica, mas também arquitetônica.

Por muitos anos, essa grande parte do imaginário paraense foi completamente abandonada. Trabalhadores e fregueses assistiam a governos passando, e o grande espaço continuava de lado. Mas, mesmo na situação de precariedade, os feirantes, artesãos, comerciantes e os frequentadores mantinham o espaço vivo e pulsando.

No ano de 2025, a cidade receberia a maior conferência sobre o clima do mundo, a COP 30, e foi nesse momento que o Mercado ganhou um holofote. De cara nova, a construção recebe outro significado: um espaço de lazer para a população.  

Com o aumento dos visitantes na capital, o fluxo de pessoas dentro do Mercado, além de outros pontos turísticos, entrou em frenesi, assim construindo novas histórias e continuando outras que já existem dentro do Mercado desde antes de sua reforma.

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Foto: Vitor Furtado - O Liberal

Com a nova revitalização do mercado, chegou também um novo público e, para a Andrea Marques, esse foi um momento único. Com o aumento do movimento e a realização de eventos que atraíram turistas, ela ficou entusiasmada com as novas oportunidades. “Eu fico olhando e digo: ‘onde era que esse povo todo estava?’ Onde esse povo todo estava que hoje em dia parece que abriu uma tela nova, sabe?”, relata.

Com muitos altos e baixos e uma trajetória marcada por lutas, disciplina e persistência, hoje Andrea alcançou um de seus principais objetivos: ajudar sua mãe e sua família. Com enorme carinho e apreço por essa construção que marca histórias, ela se despede afirmando: “Só me deseja saúde, que o resto eu corro atrás”.

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Foto: Tatiana Andrade por Henrique Pimenta

A história de Tatiana Andrade — moradora do bairro homônimo ao mercado — apesar de diferente da história de Andrea, assemelha-se nos afetos entrelaçados e na comunidade criada. Tati, como é conhecida, dedica-se há quinze anos ao local, e há 10, é dona de seu próprio box no mercado. Ela narra sua trajetória a partir de uma conversa, destrinchando elementos em ordem cronológica, conta como chegou até ali.

Inicialmente como auxiliar de cozinha no Mercado Ver-o-Peso, Tatiana buscava um segundo emprego para complementar a renda, já que trabalhava em dias intercalados. Foi nesse contexto que conheceu Dona Deuza, ou Morena, como era chamada à época. A feirante relata que chegou ao mercado perguntando, de box em box, quem poderia oferecer-lhe uma oportunidade de trabalho. “Eu disse: ‘Tá precisando de alguma ajudante’? Ela disse: ‘Sabe fazer sopa? Eu disse, sei. Sabe cozinhar? Sei. Ela disse: ‘Vem amanhã cedo’. Aí eu vim 6 horas da manhã, não tinha ninguém. Estava deserto, só que eu fiquei esperando lá, fiquei esperando, aí demorou para dar, mas às 7 horas ela chegou, né? Ela disse: ‘Faz a sopa aí’”.

Foi a partir desse diálogo que a história de Tatiana se costurou à história do Mercado, tornando-a parte dessa comunidade marcada pelo afeto e pela convivência cotidiana. Enquanto trabalhava com Morena, Tati foi chamada por seu Mário — dono de um dos boxes mais antigos — para atuar como garçonete, já que ele precisava de ajuda. Quando aceitou, passou a trabalhar nos finais de semana. Ao relembrar o período, conta como ficou “pra lá e pra cá, pra lá e pra cá”.

Durante a narrativa torna-se evidente o acolhimento que a comunidade do mercado oferecia, tanto pelos feirantes, quanto pelos frequentadores assíduos. A exemplo disso, Tatiana relata como vendia rifas de cosméticos para conseguir uma renda extra e, todos os dias, conseguia diversas assinaturas. Ela conta, inclusive, que foi dessa forma que conheceu seu atual marido, Laércio (sobrenome), que frequentemente costumava comprar seus números. 

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Foto: Tatiana e Laércio por Anna Mescouto

Enquanto era garçonete no box do seu Mário, Laércio era seu cliente de todos os finais de semana, às vezes, dançavam juntos, e ele sempre almejava conquistá-la. No entanto, Tatiana conta que era casada à época, porém com a passagem do tempo, ambos se tornaram amigos e passaram a sair para almoçar juntos. O funcionário público dizia que assinava os números da rifa de Tatiana para que pudesse passar mais tempo ao seu lado.​

 

No desenrolar da conversa com os dois, revela-se como o enlace afetivo da comunidade é capaz de ultrapassar barreiras e construir, até mesmo, um romance, registrado na história do lugar. Ela diz que Laércio é uma parte de sua história, pois ele sempre a incentivou e auxiliou a abrir o próprio box, o “Restô da Taty’s”, nomeado por seu filho.

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Foto: Frente do Mercado por Henrique Pimenta

Do abandono à realocação, finalmente é anunciada a reforma do Mercado de São Brás. Próximo a reforma, a administração do lugar muda e em janeiro de 2023, as obras são iniciadas e os comerciantes são alocados ao espaço provisório do Mercado. Tatiana relata que teve de fazer o recadastramento para a comprovação de propriedade de seu box, mas após três meses pediu afastamento do local pelas péssimas condições de trabalho. “Lá foi muito ruim, muito sofrido. Porque lá faltava água, faltava energia, era muito calor, tipo a gente não aguentava”. 

Já respaldada por seu afastamento, Tatiana relata que expandiu o negócio e, enquanto o mercado passava por suas transformações, ela inaugurou outro restaurante nas proximidades, na esquina da Rua Dr. Américo Santa Rosa, no bairro de São Brás, em Belém do Pará. A clientela fiel a acompanhou nesse novo passo. Hoje, Tatiana administra dois restaurantes e celebra a conquista de sua independência financeira. 

Por falar em clientela, ao ser questionada sobre as mudanças que a reforma trouxe ao espaço, a feirante reforça como outra gama de clientes surgiu, passando por modificações assim como a construção histórica. Com a aproximação da COP 30, turistas de variados lugares do Brasil e do mundo passaram por ali, “Foi muito bom. Muita gente estrangeira também. Muito gringo”, graceja com uma leve risada.​​​

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Foto: Transeuntes do Mercado por Henrique Pimenta

​Ao longo de suas trajetórias, tanto os feirantes quanto o próprio Mercado passaram por diferentes transformações. No entanto, foi somente com a chegada da primeira conferência mundial sobre o clima realizada em uma cidade amazônica que se abriu um novo leque de oportunidades. Tatiana revela que, a partir desse momento, os trabalhadores do mercado passaram a ter acesso a cursos de aprimoramento nas áreas de cozinha, administração e até de inglês. Transformações que beneficiam uma parcela significativa da população belenense, mas que, por muito tempo, foram negadas aos moradores locais — até que olhares externos se voltassem para a cidade.

Mas, mesmo diante de grandes mudanças, nem tudo representa um reforço positivo. Laércio, marido de Tatiana, relata que a redução do espaço após a reforma tem provocado a perda de clientes nos horários de pico. Além disso, passou a ser exigido o encerramento das atividades dos restaurantes externos, mantendo o funcionamento apenas no período diurno. Com isso, muitos comerciantes acabam perdendo espaço para restaurantes de grandes redes, o que contribui para a segregação do público noturno. Laércio brinca ao dizer que a área interna se tornou a “Estação das Docas”, espaço conhecido em Belém por ser frequentado pela elite.

Ao encaminhar-se para o final da entrevista, que mais se assemelha a uma conversa ao final da tarde, Tatiana conclui explicando como seus sentimentos pelo que faz foram se transformando ao longo dos anos. Ela afirma que não tinha muito apreço pela cozinha, mas ao passar do tempo acabou criando habilidade e consecutivamente, acabou criando amor também. “Tudo me dá vontade de fazer coisas diferentes. Aí você vai criando amor”.

Assim como a trajetória de transformação do Mercado — registrada em fotografias, monografias e estudos —, as histórias de afeto e a comunidade dos feirantes também constroem um espaço que pulsa de forma viva no portão de entrada da cidade de Belém. É a partir dessas narrativas que o imaginário popular se forma, e aquilo que inicialmente tinha como finalidade as transações comerciais transforma-se em parte da espinha dorsal do corpo que é a capital do estado do Pará.

Quer saber mais sobre os afetos que preenchem os mercados e as feiras de Belém? Confira também o nosso especial em áudio sobre a Feira do Guamá, já disponível no Spotify da Rádio Igarapé d’O Guajará!

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