top of page
WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.08.jpeg
Imagem: Bianca Portela

“A morte da floresta é o fim da nossa vida” — Cúpula das Infâncias coloca crianças como protagonistas no debate sobre o clima​​

Por: Anna Mescouto, Bianca Portela, Karina Moraes, Priscila Schalken, Raiane Campos e Victor Evangelista

Diferentes gerações puderam participar da COP-30 de alguma forma e trazer os desafios e consequências climáticas enfrentadas por elas, e o crescimento de uma pauta importante: o papel das crianças na causa ambiental. Com essa temática em mente, foi organizada e implementada a Cúpula das Infâncias, um evento em colaboração com a Cúpula dos Povos, ambas realizadas na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Entre os dias 10 e  21 do mês de novembro de 2025, a capital do Estado do Pará, Belém, se tornou sede da 30ª Edição da Conferência das Partes (Conference of the Parts), mais popularmente conhecida como COP-30.

A cidade recebeu pessoas de diversas regiões do país e do mundo, tendo como destaque presidentes, ministros, embaixadores, entre outros. Contudo, houve também uma representação significativa dos povos amazônidas,  povos tradicionais,  em especial os mais vulneráveis e afetados pelas mudanças climáticas e que, mesmo assim, são desprezados pela sociedade e pela imprensa em massa, trazendo um novo e profundo significado para a realização de um evento global no centro da Amazônia.

A realização da primeira Cúpula das Infâncias em Belém não foi uma escolha aleatória. A COP-30 ficou conhecida como a “COP da Verdade”, uma edição onde seria demarcada a urgência de superar os combustíveis fósseis para reverter as mudanças climáticas, que já afetam as vidas de crianças, adolescentes e jovens no Brasil e no mundo. Segundo o relatório de 2025,“A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática”, desenvolvido pelo Núcleo Ciência pela Infância, crianças nascidas em 2020 vivenciaram 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,6 vezes mais secas do que as nascidas em 1960.

Na programação oficial da COP, as atividades relacionadas às infâncias e às juventudes foram limitadas aos dias 17 e 18, o que foi considerado pouco por organizações da defesa da infância, para desenvolver um assunto tão importante e crucial no debate climático. Com a compreensão de que toda discussão sobre meio-ambiente é uma discussão sobre futuros possíveis para as próximas gerações, a Cúpula das Infâncias trouxe a figura da criança como sujeito ativo e central na viabilização de um planeta mais sustentável.

A pequena Glenda Sá tem doze anos e fez parte do grupo folclórico que dançou na abertura da Cúpulas das Infâncias, usando um figurino que remete às árvores que ficam secas por conta do desmatamento . Natural de Curralinho, na ilha do Marajó, ela veio à capital para participar  das atividades e da construção da Carta das Infâncias. Tudo isso, com a companhia de sua mãe, Rafaela Sá, que acredita na importância de empoderar as crianças como protagonistas do debate climático. 

“A gente sabe a importância da preservação do meio ambiente, então trazer ela para participar da COP, eu acho que é um momento importante pro crescimento dela. E a gente tá precisando muito disso, que as crianças cresçam com esse pensamento da importância do desenvolvimento amazônico, por que a Amazônia precisa disso, de pessoas que lutem por ela.“ afirmou Rafaela.

WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.08 (2).jpeg

Rafaela Sá e filha Glenda Sá - Foto por Bianca Portela

WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.09 (1).jpeg

Crianças caminhando - Foto por Bianca Portela

 

Reunindo mais de 120 organizações, entidades da sociedade civil e movimentos sociais, a Cúpula das Infâncias nasce com o objetivo de ampliar espaços para ecoar as vozes e necessidades das crianças e adolescentes da Amazônia, do Brasil e do mundo nas discussões de suas problemáticas individuais e coletivas sobre justiça climática.

Salomão Hage, um dos coordenadores do evento e também professor do Instituto de Ciências da Educação (ICED) da UFPA, lembra que, em uma sociedade em que adultos elaboram propostas e ações para falar sobre meio ambiente e clima, a participação de uma juventude diversa é fundamental para alcançar as diferentes demandas desse público.

“Numa sociedade adultocêntrica, que nem sempre escuta as vozes das crianças, não considera que elas têm o que contribuir para a transformação, o enfrentamento das desigualdades sociais e da crise climática, conseguimos trazer crianças do Brasil inteiro, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, das periferias urbanas, já construindo suas próprias mobilizações. Elas não precisam de nós para dizer o que querem, precisam do nosso apoio para chegar aqui e ter esse espaço.”, ressaltou.

Especialmente na Amazônia, região fortemente atingida pelas mudanças climáticas, o protagonismo juvenil em eventos como esse é indispensável. Rita Dias, também coordenadora do evento, reforça esse propósito e reafirma a importância de programações lúdicas para ouvi-los e fazê-los debater sobre o assunto desde os seus primeiros anos de vida.

WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.08 (1).jpeg

Rita Dias - Foto por Anna Mescouto

A Cúpula das Infâncias focou em destacar as vozes não apenas de crianças e adolescentes, mas também educadores e movimentos sociais como protagonistas na agenda ambiental. A programação do evento buscava refletir esse destaque em atividades culturais, oficinas, mesas de discussão e a criação da Carta das Infâncias.

No meio dessa iniciativa, a participação de voluntários na Cúpula das Infâncias foi crucial para o recrutamento de jovens. Além do apoio na parte de organização, logística e tradução para manter o máximo possível de protagonismo infantil. Para Bruna Martins, uma das voluntárias que atuou no evento, a COP30 e a Cúpula das Infâncias foram uma oportunidade única.

“Eu escolhi ser voluntária pela Cúpula das Infâncias, porque não é todo dia que a gente tem uma COP30 aqui em Belém do Pará, na nossa capital. Então é uma oportunidade única que a gente tem que aproveitar para conhecer novas culturas, novos povos e fazer esse debate que é tão importante para a nossa sociedade, que é o debate do meio ambiente.”

A programação principal também contou com o protagonismo de crianças indígenas e ribeirinhas por meio de apresentações culturais (Grupo Içá, percussão). Crianças de todas as idades, de diversos locais, apresentaram suas realidades e desejos a partir de jogos e brincadeiras para expressar suas preocupações com o clima.

“[...] A gente sabe que a discussão do meio ambiente, ela parte de todas as idades, não tem faixa etária, desde a infância, adolescência, adultos e idosos. Inclui também todas as etnias, todas as identidades culturais, todas as questões socioeconômicas, então não exclui ninguém, esse debate é muito importante. E a maior importância disso tudo é que a gente sabe que o meio ambiente está na mão das crianças, então as crianças são o futuro do nosso país, do nosso mundo.”, comentou Bruna.

O objetivo principal da Cúpula das Infâncias foi elaborar um documento final com ajuda de todos os jovens com propostas e exigências aos adultos e governos, como “plantar muitas árvores” e “ouvir as comunidades” para garantir o melhor futuro possível para eles que em breve serão os principais cuidadores do nosso mundo.

“É ouvir, oportunizar a escuta das diferentes realidades das nossas crianças, onde possam discutir os problemas que enfrentam no dia a dia e as propostas que elas têm de enfrentamento a essa questão climática. A gente precisava, através da arte, do esporte, do lazer e da cultura, possibilitar esse momento de escuta qualificada”, destacou ela.

WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.08 (3).jpeg

Cartaz-denuncia feito pelas crianças - Foto por Bianca Portela

A Carta das Infâncias foi lida por três crianças que representaram toda a comunidade participante. Breno Cortes, de 16 anos, mora em Eldorado do Carajás, município situado no sul do Pará, e foi um dos oradores. Para Breno, a Cúpula das Infâncias foi um momento fundamental para que as crianças e adolescentes fossem ouvidas e vistas.

“Eu faço parte do Comitê de Participação da Criança e do Adolescente, e a experiência de participar da Cúpula das Infâncias foi muito importante e muito legal, tivemos várias dinâmicas que mostraram para (essas crianças) os desafios que eles terão que enfrentar, porque queremos um futuro melhor e um presente ativo, porque todas as infâncias importam”, comentou.

No decorrer da carta, os pequenos denunciam a realidade do cotidiano que enfrentam, com o calor extremo, coisas simples como uma brincadeira de rua passam a ser restritas. A ameaça em territórios, a morte e caça de animais, o desaparecimento de espécies nativas foi proclamado em voz alta, com suplico de alerta nas palavras discorridas. 

“Tem criança que não consegue brincar no sol, estudar na sala quente, caminhar na rua cheia de poeira. Tem escola que não tem árvores para fazer sombra. Tem bairro onde o vento quase não passa [...] A morte da FLORESTA é o fim da nossa vida.”

Crianças e adolescentes são o futuro e o presente do mundo, a crise climática afeta a todos, mas principalmente aqueles que já crescem vendo o seu mundo se tornando chamas. Quando a infância se torna luta, medo e insegurança, a humanidade cai em ruínas. É dever da sociedade garantir os direitos de saúde, alimentação, educação, lazer, cultura e dignidade das crianças, e isso começa na luta climática.

WhatsApp Image 2026-04-12 at 00.49.07.jpeg

Leitura da Carta das Infâncias - Foto por Bianca Portela

Romper o ciclo de violações e o silenciamento contínuo dessa pequena-grande comunidade não é uma tarefa simples.  É o que aponta Taissa Kambeba, liderança indígena do povo Omágua/Kambeba, localizado no médio rio Solimões, no estado do Amazonas. Para ela, a realização de espaços como a Cúpula das Infâncias é fundamental, pois demonstra que ainda existem lideranças dispostas a ouvir a juventude e suas demandas. “Que querem ouvir as nossas crianças, o que se passa pela cabeça de uma criança e as preocupações sobre as mudanças climáticas. Sou ativista do movimento indígena, contra a mudança climática e eu incentivo as crianças da minha comunidade, sabe? Porque eu sei o quanto é difícil ser escutada. Eu sei o quanto é difícil a luta pelo que a gente faz hoje”.

Outro exemplo de quebra do ciclo de apagamento das infâncias nos espaços políticos e sociais é a trajetória de João Victor Costa da Silva, conhecido no meio ativista como João do Clima. Natural da ilha de Caratateua, ou Outeiro, em Belém do Pará, ele iniciou sua atuação a partir de uma mobilização comunitária para a retirada de um lixão localizado em frente à sua rua. Com apenas 16 anos, João – que é conselheiro jovem do UNICEF Brasil – foi impulsionado pelo movimento comunitário de base, nascendo a partir de uma mobilização com jovens e adultos e grande parte dos moradores para a retirada de um lixão de sua comunidade, localizado em frente à sua rua.

Ele relata que essa experiência foi decisiva para sua entrada em espaços de negociação e decisão sobre os impactos climáticos. Segundo ele, a participação ativa de crianças e adolescentes na agenda ambiental passa pela forma como o tema é comunicado. “Eu acho que como a gente pode impulsionar a juventude, é falando de jovem para jovem, de adolescente para adolescente. Porque esse termo mudança climática ou crise climática ainda é muito complexo e é muito adultizado. Então acaba não chegando na juventude. E quando o adolescente fala, fala para os jovens, e a gente sabe o termo e a linguagem que vai cativar, vai conseguir inspirar eles, aí muda tudo”.

Durante a Cúpula dos Povos, diferentes grupos sociais também estiveram à frente de manifestações, entoando a frase que ganhou força na semana em que Belém sediou a COP-30: “A resposta somos nós”. Em meio aos atos, as infâncias deixaram claro que não apenas fazem parte dessa resposta, mas que também representam o futuro das decisões climáticas – o futuro do planeta.

O Guajará, desde 2025

bottom of page