top of page
trabalhador-entrega-aplicativo-rio-de-janeiro-foto-tomaz-silva-agencia-brasil-scaled.jpg.j
Imagem: Tomaz Silva / Agência Brasil

Entre prêmios e metas: a gamificação que precariza o trabalho de entregadores de aplicativos

Por: Anna Mescouto, Bianca Portela e Priscila Schalken

Os aplicativos de delivery estão cada vez mais presentes no cotidiano urbano das pessoas, pois é muito mais prático, rápido e acessível abrir o celular, escolher seu restaurante favorito e pedir o prato desejado. Essa praticidade ofertada pelos aplicativos, por outro lado, evidencia uma rotina exaustiva de trabalho condicionada a objetivos e metas de entregas diárias mediadas pelas plataformas. Por trás disso está a chamada Gamificação do Trabalho.

 

De acordo com o pesquisador em comunicação Tarcízio Macedo – doutor pela UFRGS, com pós-doutorado em Comunicação e Estudos de Mídia na UFF e experiência em jornalismo científico, game studies e divulgação da ciência – a gamificação do trabalho coloca as atividades cotidianas laborais em um sistema de missões e recompensas, mobilizando os entregadores a cumprir tarefas à procura de um prêmio, de alguma recompensa. “A gamificação, a grosso modo, é o uso de mecânicas, linguagens e dinâmicas próprias dos jogos em contextos que não são de jogo”, afirma.

 

Entregas de comida em casa já eram uma realidade antes dos aplicativos de delivery. Alguns restaurantes disponibilizavam contatos de telefone para o atendimento de entrega até a casa do cliente. Foi com essa proposta que o Ifood surgiu em 2011, como um guia de cardápios impressos de vários estabelecimentos, e em 2012 se consolidou como site e aplicativo. Com a ascensão desse tipo de empresa, cresce também a precarização da mão de obra por parte dos seus trabalhadores.

 

Tarcízio comenta que as plataformas criam narrativas de facilidade para exercer sua mão de obra. Um meio não burocrático e “rápido” de adquirir renda. “É fácil entrar, fácil se cadastrar. É apresentada como fornecedora de infraestrutura. É mais simples do que contratar efetivamente um empregado ou terceirizado. Então, em vez de contratar uma pessoa fixa para prestar serviço, tu simplesmente pagas alguém por corrida, por entrega, além de prometer facilitar o trabalho do entregador ou do motorista”. Contudo, esse processo de gamificação vai muito além de uma tentativa de criar um “lazer” ou entretenimento, apesar de mínimo, para distrair e aumentar a produtividade do trabalhador.

 

Durante a entrevista, o pesquisador pontua sobre a realidade por trás desse cenário presente no cotidiano de entregadores e, também, atrelada à sociedade e ao contexto socioeconômico mundial. “Esse modelo de trabalho se caracteriza, primeiro, pela ausência de vínculo permanente entre a empresa e o prestador de serviço ou seja, entre a plataforma e esse prestador de serviço, predominando contratos temporários, atividades feitas por projeto e flexibilização de direitos trabalhistas. [...] Essa classificação permite às empresas se afastarem, de certa forma, de obrigações trabalhistas. Porque, do ponto de vista jurídico, o termo que define essa relação é muito importante. Essa lógica redefine tanto o trabalho, o processo laboral, quanto o consumo.”

 

Em 2023, uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), apontou que 83% dos entregadores que participaram da pesquisa estão na classe C ou inferior. Esse dado permite observar mais uma consequência da desigualdade social ainda tão presente no Brasil e no mundo, em que empresas e multinacionais oferecem mecanismos e métodos sem os devidos direitos trabalhistas, auxiliando na precarização das condições de trabalho, em que os entregadores podem enfrentar agressões físicas, morais e verbais diariamente sem o devido amparo, segundo relatos de entregadores e trabalhadores durante entrevista. Como o jovem Alan Nobre, que citou como o próprio aplicativo pode bloquear o perfil do entregador se ele não se mostrar disponível para realizar entregas durante o dia.

 

Todo esse cenário tem relação direta com o fenômeno da “plataformização”, que vem alterando não apenas o mundo do trabalho, mas também os ambientes sociais, os relacionamentos, a saúde e o bem-estar, por exemplo. De acordo com o pesquisador, esse processo converte dados pessoais em uma nova forma de capital, movimentando a economia global e redefinindo as formas de comunicação. Empresas como Facebook, Amazon, X (antigo Twitter) e plataformas de jogos como Garena e Riot Games são alguns dos exemplos mais representativos desse cenário, atuando justamente na intersecção entre comunicação e economia. “Então, a gente tem aí uma ascensão dessas empresas que também, de alguma forma, transformam a comunicação em uma mercadoria. Elas passam a converter os nossos dados pessoais em uma nova forma de capital”, afirma.

 

No contexto dos entregadores de aplicativo, a expressão “uberização”, que está em processo de desuso, vem sendo substituída em estudos mais recentes pelo termo “plataformização do trabalho”, como um conceito mais amplo, que dá conta da diversidade de lógicas e práticas envolvidas. Esse conceito está diretamente relacionado à ótica neoliberal e capitalista de exploração do trabalhador, em que as plataformas digitais funcionam como intermediárias que lucram com a precarização do trabalho. Ao mesmo tempo, essas empresas buscam esconder esse processo, isentando-se da responsabilidade direta sobre os direitos e condições de quem depende delas para sobreviver. “A plataforma sempre se vende para se isentar, numa ideia de que ela está apartada dessa relação, de que não interfere, apenas estabelece a estrutura. Mas a gente sabe que isso não é real. Muitas pessoas vão dizer que a plataforma é mediadora, uma instância mediadora, que interfere diretamente nesse processo, nessa relação entre o usuário e o prestador de serviço, ou entre o usuário e o produtor de conteúdo”, diz Tarcízio.

 

Para o pesquisador, as plataformas não são neutras, já que exercem poder sobre usuários e produtores ao impor seus próprios termos. Por isso, a discussão sobre regulamentação busca justamente atribuir a elas maior responsabilidade pelos impactos que geram. Outro ponto abordado por Tarcízio é o papel da legislação nesse processo. A flexibilização das leis trabalhistas, especialmente durante o governo Temer, entre 2016 e 2017, abriu espaço jurídico para a rápida expansão das plataformas no Brasil, o que explica a explosão da Uber e de outras empresas no período. Nesse sentido, o enfraquecimento da legislação trabalhista foi decisivo para consolidar a plataformização do trabalho no país. Hoje, porém, o cenário é distinto: o atual governo discute formas de retomar a regulação, enquanto movimentos sociais, sindicatos e novas categorias de trabalhadores digitais, como os entregadores de aplicativo, se mobilizam para reivindicar regulamentação e reconhecimento de vínculo formal.

Lixo 2.jpg

Por: José Otávio e Vitória Ferreira

O Guajará, desde 2025

bottom of page