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Frankstein: a versão emocional de Guillermo del Toro

Por: Tahís Cristine

Desde sua publicação em 1818, Frankenstein, romance escrito por Mary Shelley, tornou-se uma das narrativas mais influentes da literatura ocidental. A história do cientista, que desafia os limites da natureza ao criar vida em seu laboratório, atravessou séculos e recebeu centenas de adaptações em diversos formatos e interpretações artísticas, consolidando-se como um dos mitos fundadores do imaginário moderno sobre ciência, responsabilidade e monstruosidade. A obra também foi responsável por colocar a criatura retratada no mesmo patamar de outras criaturas clássicas do terror e da cultura pop (tanto literária quanto cinematográfica), como o vampiro Drácula, o mítico Lobisomem e a milenar Múmia.

 

Entre as versões mais emblemáticas da obra, está o clássico Frankenstein de 1931, dirigido por James Whale e produzido pela Universal Pictures, que ajudou a fixar no imaginário popular a figura da criatura como um ícone do horror. Diante de uma tradição tão extensa, cada nova adaptação carrega o desafio de reinterpretar uma história já profundamente enraizada na cultura. Então, qual seria o diferencial da versão de Guillermo del Toro, Frankenstein (2025)?

 

Reconhecido por sua filmografia marcada pelo fascínio pelo fantástico e pela sensibilidade em relação a personagens marginalizados, o cineasta mexicano retorna ao universo gótico para oferecer uma leitura própria do clássico de Mary Shelley. Para Del Toro, monstros são espelhos da humanidade e, como o exímio contador de histórias que ele vem se provando ser, ele busca sensibilizar esses indivíduos. Mais do que revisitar a narrativa de um experimento científico que foge ao controle, o diretor parece interessado em explorar as implicações humanas e existenciais da criação de vida artificial, deslocando o foco do horror para uma reflexão sobre identidade, pertencimento, romance e responsabilidade.

 

Ao longo de sua carreira, Del Toro demonstrou uma relação particular com criaturas consideradas monstruosas. Em seus outros longa-metragens, como O Labirinto do Fauno e A Forma da Água, o diretor construiu histórias nas quais o “monstro” deixa de ser apenas objeto de medo para se tornar um espelho das fragilidades e contradições humanas. Essa perspectiva reaparece em sua interpretação de Frankenstein. A criatura não surge apenas como resultado de um experimento científico, mas como um ser lançado ao mundo sem origem, sem pertencimento e condenado a enfrentar a rejeição de uma sociedade incapaz de lidar com aquilo que foge às normas estabelecidas.

 

Outro elemento fundamental da adaptação de Del Toro está em sua estética visual. Conhecido pelo cuidado minucioso com cenários, figurinos e atmosfera, o diretor constrói um universo marcado por uma forte estética gótica. Cenários sombrios, texturas densas, iluminação contrastada e dramática, uma forte direção de arte extremamente detalhada e uma fotografia que enfatiza contrastes entre luz e sombra reforçam o tom romântico, trágico e melancólico da narrativa. Mais do que mero recurso estilístico, essa construção visual dialoga diretamente com os temas do filme, sugerindo que a monstruosidade não reside apenas na criatura, mas também nas estruturas sociais e morais que a rejeitam.

 

Inspirada em ilustrações anatômicas do século XVIII e projetada para parecer com que a anatomia interna da criatura estivesse do lado de fora, a maquiagem do filme realmente merece o destaque que vem recebendo, sendo uma impressionante obra de efeitos práticos que exigiram aproximadamente 12 horas diárias de aplicação por uma equipe especializada. O visual incluiu mais de 42 próteses de borracha no corpo, focando em uma aparência visceral e melancólica, e surpreendentemente sem o uso de CGI (Computer-Generated Imagery).

 

A estrutura narrativa do filme também merece ser ressaltada, pois ao se dividir em partes principais (“Prelúdio”, “Parte I: A história de Victor” e “Parte II: A história da Criatura”), focando na perspectiva de cada um dos personagens centrais, consegue trazer uma verossimilhança com peças teatrais e óperas, mostrando uma perspectiva criativa e artística do diretor ao escolher esse recurso narrativo para contar sua releitura, com uma estrutura dividida em "contos". O filme reimagina a história, com o Criador, e não a Criatura, cometendo alguns dos atos mais trágicos.

 

A trama apresenta personagens dúbios e desenvolvidos de forma bastante aprofundada, com conflitos internos, escolhas difíceis e decisões questionáveis que impactam os desdobramentos do filme. O protagonista Victor Frankenstein, interpretado pelo ator Oscar Isaac (Cavaleiro da Lua), ao dar vida à criatura, não apenas rompe limites científicos, mas também assume, ainda que relutantemente, um papel quase divino. Isaac consegue trazer a intensidade e euforia que beira à loucura em seu personagem, destacando aspectos mesquinhos e egoístas do cientista, que levantam o questionamento secular da obra sobre quem é o verdadeiro monstro. Já no papel do Herr Harlander, Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), assume a postura de uma “velha raposa” astuta e polida, investindo no trabalho de Victor e escondendo seus verdadeiros interesses ambiciosos até o ápice do filme. Mia Goth (Pearl), neta da atriz brasileira Maria Gladys, interpreta com maestria a doce – porém nada ingênua – Lady Elizabeth Harlander, que traduz o olhar e o sentimento do público ao longo do desenvolvimento da trama e de cada novo desdobramento que surge. Porém, é o Capitão Anderson do ator dinamarquês Lars Mikkelsen (O Dia da Invasão) que consegue captar a curiosidade e a inocência do espectador frente à trama que está sendo contada, servindo principalmente como um mediador da história entre o criador e a criatura.

 

Jacob Elordi (Euphoria) merece um reconhecimento especial. O astro, que possui a incrível característica de 1,96 metros de altura, ficou responsável por “dar vida” à criatura, que mesmo recebendo o título de “coadjuvante” da obra, conseguiu roubar a cena com sua entrega na interpretação e na profundidade de camadas que o intérprete colocou no ser criado pelo médico e cientista cruel. A atuação de Elordi foi aclamada pela crítica, com destaque para a transformação física intensa do ator, recebendo também elogios pela humanização e representação da dor trazida ao papel, que demonstra a solidão vivenciada pelo monstro ao perceber sua origem e ao acreditar que não tem lugar para sua existência nesse mundo.

 

O filme também traz importantes metáforas e alegorias, recuperando uma dimensão essencial do romance original de Mary Shelley: a reflexão sobre o abandono e a responsabilidade moral do criador diante de sua própria criação. A alegoria predominante do longa é retratada ao se analisar o verdadeiro legado da linhagem Frankenstein: um ciclo de abusos e abandonos parentais, iniciado na relação entre Victor e seu pai e perpetuado/transferido de Victor para com a sua criatura. A questão que se impõe, então, não é apenas se a ciência pode criar vida, mas quais são as consequências éticas desse gesto. Ao abandonar sua criação, o cientista inaugura uma tragédia que revela a dimensão profundamente humana do monstro: sua busca por reconhecimento, afeto e identidade.

 

De acordo com a psicóloga Bruna Martinello, Frankenstein (2025) não é um filme sobre monstros, mas sim sobre vínculos. Quando o criador rejeita sua criação, ele na verdade está rejeitando a parte de si mesmo que não consegue amar. Então a monstruosidade, tanto do ser quanto do criador, nasce da falta de amor e da rejeição, fazendo a criatura vagar em busca de sentido para sua existência e a procura de um vínculo. Ao encontrar uma figura acolhedora no velho sábio e cego do campo – alguém que não a teme, não a julga e não a repele –, o “monstro” cria um vínculo “restaurador” ou “reparador”, que não apaga a dor anterior, mas ensina que a dor não precisava definir quem ele era. Em síntese, o filme trabalha de forma profunda o impacto dos vínculos nas vidas dos personagens.

 

No entanto, é necessário reconhecer que o ritmo do longa é afetado e sofre um pequeno prejuízo no início do segundo ato, quando é revelado o ponto de vista da criatura. A história perde um pouco a cadência e fica arrastada na parte do desenvolvimento do “monstro”, por cortar a sequência tensa do final da história sob a ótica do criador e introduzir um ritmo mais leve para pontuar o início da recente vida da criação. Porém essa “quebra” não ocorre de forma leviana; ela é fundamental para a humanização da criatura e muito importante para criar o vínculo com o público, aumentando a empatia pelo personagem, pois se torna fácil compreender e se identificar com o “monstro” para todos aqueles que já experienciaram sentimentos de insuficiência e invisibilidade. Em vez de reduzir a criatura a um símbolo do terror, o filme a apresenta como um personagem marcado por solidão, sofrimento e desejo de pertencimento.

 

Mais de dois séculos após sua publicação, o romance de Mary Shelley continua a provocar reflexões sobre ciência, ética e responsabilidade humana. A versão de Guillermo del Toro demonstra que essa história permanece relevante justamente porque aborda dilemas que seguem atuais. Ao unir estética gótica, sensibilidade emocional e reflexão filosófica, o diretor oferece uma adaptação que dialoga com a tradição do mito de Frankenstein, ao mesmo tempo em que reafirma sua própria assinatura autoral no cinema contemporâneo.

 

Frankenstein (2025) recebeu 9 indicações ao Oscar de 2026, nas seguintes categorias: Melhor Ator Coadjuvante: Jacob Elordi, Melhor Roteiro Adaptado (Guillermo del Toro), Melhor Fotografia (Dan Laustsen), Melhor Maquiagem e Penteado, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino (Kate Hawley), Melhor Trilha Sonora Original (Alexandre Desplat), Melhor Som, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Filme (a categoria principal da premiação). O filme está disponível na Netflix.

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