
Uma análise de Hamnet: O que é mais volúvel, mais visceral que as emoções humanas?
Por: Anna Mescouto
Muito além de uma biografia daquele que possivelmente é o autor mais célebre desde sua geração, Hamnet: a vida antes de Hamlet constrói uma narrativa sobre amor, perda, luto e, sobretudo, sobre arte e sensibilidade. Dirigido pela cineasta Chloé Zhao, já contemplada anteriormente pela Academia, o filme adapta a obra homônima a partir de uma abordagem intimista, permitindo que o público se conecte com um elemento frequentemente negligenciado: a vulnerabilidade das emoções humanas.
Ao deslocar o eixo narrativo para Agnes, esposa de Shakespeare (interpretada brilhantemente por Jessie Buckley), frequentemente atribuída a um papel secundário nas biografias e relatos históricos sobre o dramaturgo, o roteiro propõe uma perspectiva pouco explorada. A narrativa se abre à subjetividade do espectador, dialogando diretamente com a sensibilidade e à subjetividade que marca a filmografia de Zhao.
Nos primeiros momentos do longa, o protagonismo de William pode ser avistado, delineado pela atuação contida e estável de Paul Mescal. No entanto, à medida que a narrativa avança e o personagem se distancia do núcleo dramático, sua presença em cena também é reduzida. Nesse movimento, a performance de Mescal acaba sendo obscurecida pela força interpretativa de Buckley, cuja atuação assume o centro emocional da obra. Não por acaso, a atriz vem se destacando no circuito de premiações, acumulando indicações e reconhecimento em premiações como Globo de Ouro, BAFTA e Critics Choice.
Cenas como a do parto dos gêmeos — a sensação aterrorizante de não ter o controle do próprio corpo enquanto aguarda o destino inquietante de achar que perderia um dos filhos ou a própria vida durante o parto — tornam-se angustiantes e agonizantes. A interpretação de Buckley transcreve esses sentimentos para a materialidade diante da tela. Porém, nada se equipara à cena da perda de seu filho Hamnet, incorporado pela atuação mirim de Noah Jupe. A morte, causada pela peste bubônica que assola o continente no século XVI, marca o clímax da narrativa e o enredo central, tornando-se uma ruptura bruta que contrasta com a suavidade anteriormente instaurada na atmosfera da trama.
O filme vem se tornando um divisor de águas entre a internet e os críticos: os que desgostam acusam a narrativa de forçar e ansiar, de maneira insistente,o rompimento emocional do espectador, sendo frequentemente descrita, tanto em relação à atuação de Buckley quanto às escolhas narrativas, como excessivamente apelativa.
Porém, o que é mais volúvel, mais visceral que as emoções humanas?
No momento em que a perda de uma vida tão nobre, e de forma tão corajosa, como a do pequeno Hamnet irrompe na tela, toda a atmosfera do filme se transforma. O que é a dor do luto, afinal, senão o afloramento dos sentimentos mais desoladores e dilacerantes?
A perda de Agnes nos coloca em contato direto com a prática da empatia em seu sentido mais literal. Trata-se de sentir aquilo que a personagem exprime em cena: compartilhar da devastação de uma mãe que perde um filho, acompanhar sua relutância em aceitar o inevitável e sua luta desesperada para manter aquela vida, negando à criança o descanso definitivo da morte.
Em seguida, somos confrontados pelo luto interminável e pela frustração de Agnes ao acreditar que seu marido não compartilha da mesma dor, sobretudo pela ausência dele naquele momento decisivo. Instala-se, então, a sensação angustiante de que ninguém é capaz de compreender plenamente aquela perda; de que ninguém jamais poderá sentir exatamente o que ela sente diante da ausência de seu filho.
Ao longo da trama, que atravessa a vida familiar de Agnes e William — ainda que, devo confessar, de maneira bastante fugaz e às vezes corrido demais para gerar apego ao núcleo familiar —, o filme apresenta apenas breves referências à obra de Shakespeare. Entre elas, destacam-se momentos em que os filhos interpretam trechos de Macbeth ou a sugestão de que Romeu e Julieta começa a tomar forma logo após o encontro entre William e Agnes.
Nesse sentido, a narrativa se afasta deliberadamente de uma abordagem biográfica tradicional. O filme só se torna, de fato, um recorte direto da trajetória do dramaturgo quando revela a dificuldade de William em lidar com a culpa e com o luto pela morte do filho. É nesse ponto que surge Hamlet: não apenas como uma obra literária, mas como um gesto de elaboração do sofrimento. A escrita da peça se apresenta, então, como a única forma possível de expurgar aquela dor, um sentimento que dilacera o peito e parece arranhar a garganta. É a partir desse momento que se torna possível perceber a dimensão metalinguística da arte: a capacidade de expressar sentimentos que muitas vezes não conseguimos traduzir em uma única conversa; ou mesmo em muitas delas.
Na minha concepção, Chloé Zhao, em diálogo com a direção de fotografia de Łukasz Żal, materializa pequenos indícios da arte como expressão do sentimento e como reflexo da vida real. Isso se manifesta em elementos de forte carga simbólica e subjetiva, como a pintura da caverna (representada como o “outro lado”, o lugar de descanso de Hamnet) que remete ao espaço favorito de Agnes na floresta.
Quando Agnes, ainda tomada por uma teimosa abnegação e pela rejeição ao marido, descobre a existência da peça, acredita inicialmente que ele esteja utilizando a memória e o nome do filho para autopromoção. É então que somos confrontados, pela primeira vez, com a encenação da obra que carrega o nome da criança perdida. Ao testemunhar a sensibilidade vulnerável da escrita do espetáculo, ao alcançar o toque da representação de seu filho, a personagem aparenta ser tomada por uma onda de sentimentos. Entre eles, sobressaem o reconhecimento e o alívio por não se sentir mais sozinha., em finalmente enxergar que seu marido unia-se a ela no sentimento de luto. Mais do que isso, compreende que aquela perda íntima foi transformada em algo maior: ao longo dos séculos, Shakespeare acabou por imortalizar a memória do filho por meio da própria arte.
Nesse momento, o filme nos arrebata com imagens que poderiam facilmente ser descritas como quadros vivos, dignos de serem transpostos para telas e expostos em galerias. A arte surge ali como sentimento tornado matéria: um soluço que irrompe da garganta, seguido por outro, acompanhado pelas inúmeras lágrimas silenciosas que o antecederam.
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