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Pecadores é arte que rompe o véu entre passado, presente e futuro.

Por: Junior Wanzeler

Após alguns anos de carreira dedicados a produções de grandes franquias cinematográficas — entre elas o premiadíssimo longa Pantera Negra (2018) e a elogiada sequência da franquia Rocky, Creed (2015) —, o diretor e roteirista Ryan Coogler decide apostar em um drama histórico, ambientado no Mississippi de 1932, sobre a população negra dos Estados Unidos. Mergulhado no terror gótico, na ancestralidade afro-americana e nas raízes do blues, ele finca sua marca como um grande nome entre os diretores autorais de Hollywood — e acerta com maestria!

Na trama, após anos trabalhando para a máfia de Al Capone, os gêmeos Elias "Stack" e Elijah "Smoke" Moore, ambos vividos por Michael B. Jordan, retornam à sua pequena cidade interiorana no estado do Mississippi com uma mala cheia de dinheiro roubado e um objetivo claro: até o fim do dia, abrir um clube de blues dedicado exclusivamente aos negros locais, como um espaço de refúgio para essa comunidade profundamente marcada pela segregação. Então, eles partem em busca do grupo que os ajudará nessa missão. Entre estes estão o primo dos gêmeos e aspirante a bluesman, Sammie "Preacher Boy" (Miles Caton), o veterano do blues, Delta Slim (Delroy Lindo), e a ex-esposa de Smoke, Annie (Wunmi Mosaku). Mas o que eles não esperavam é que, na mesma noite, o mal baterá à sua porta — e ameaçará não apenas acabar com sua festa, mas com suas vidas.

À primeira vista, a sinopse do filme de Coogler não aparenta ser mais do que apenas outro filme de terror/ação hollywoodiano, como tantos outros, principalmente ao se descobrir que se trata de uma história de vampiros. No entanto, a riqueza desse longa ultrapassa a forma como foi vendido por seus materiais promocionais e por seus cartazes nada originais. A narrativa ganha profundidade ao apostar em simbolismos e expressões culturais distintas — principalmente a história do negro nos Estados Unidos, a constante disputa (nem um pouco simétrica) com a cultura colonizadora branca/europeia e a relação íntima que Coogler tem com essa temática —, para cativar o espectador em uma trama que poderia parecer já reproduzida aos montes, mas que surpreende por sua originalidade e profundidade de temas.

Outro fator determinante para o sucesso de Pecadores foi a oportunidade que o diretor teve de determinar o corte final. É comum, em filmes de grandes estúdios, que a produtora dite o que deve estar ou não dentro do filme, baseando-se em fórmulas prontas. Mas, nesse caso, por conta de seu contrato e exigências feitas antes mesmo do início da produção, o diretor escolheu o que queria que estivesse em seu filme — e isso resultou em um ritmo ímpar para filmes de grande orçamento (ou blockbusters) como este. Pecadores se permite aproveitar cada segundo com seus personagens antes de jogá-los à ação; dois terços do longa são dedicados quase que exclusivamente à apresentação de cada um dos componentes da trama, possibilitando seu desenvolvimento de modo que todos eles — até os com menor tempo de tela — sejam personagens palpáveis, reais e complexos. Os dois papéis de Michael B. Jordan estão à prova: mesmo tendo o mesmo rosto, cada um possui suas particularidades, expressas tanto pelo figurino quanto pelas nuances e expressões corporais do ator.

Mas Pecadores não seria o filme que é sem a peça fundamental de sua história: o blues. O gênero musical, originado por afro-americanos no sul dos Estados Unidos, aqui é representado de forma religiosa — como expressão artística que rompe as barreiras entre o mundano e o sagrado, entre matéria e espírito —, um canal para a ancestralidade africana (mas não apenas esta ancestralidade). Não há, dentro da história do longa, personagem que melhor representa essa força do blues do que o Preacher Boy, vivido brilhantemente por Miles Caton. Seu personagem, e a música que ele produz, são o centro de toda a sequência de eventos — seja para o bem ou para o mal. Ao desobedecer às ordens de seu pai e pastor, Sammie se une ao plano de seus primos de criar o clube, pois vê nisso a oportunidade de viver seu sonho de se tornar um grande músico de blues. A partir disso, o filme brilha ao unir o trabalho fenomenal da trilha sonora — composta pelo vencedor do Oscar Ludwig Göransson — à belíssima voz de Caton em uma grande cena em plano-sequência (onde não há cortes), criando uma das cenas mais impactantes e catárticas dos últimos anos do cinema. Nesse momento, o blues — e todos os vários gêneros musicais que Göransson mistura na canção "I Lied to You" — se tornam a mais pura representação do sagrado.

Além disso, ao mesmo tempo que Coogler acerta ao representar o sagrado, a ancestralidade e a cultura afro-estadunidense através de simbolismos e subtextos carregados de história e profundidade, ele também tem êxito em trazer o profano como alegoria direta à colonização. Não foi por acaso a escolha da principal ameaça ser a tradicional figura do vampiro europeu — aqui retratado por Remmick (Jack O'Connell) —, uma criatura mitológica conhecida pela necessidade insaciável de consumir o que existe de mais vital no outro. Remmick não quer apenas saciar sua sede por sangue; ele é motivado principalmente pela ânsia de controle e posse do que nossos personagens têm de mais valioso, seja a música de Sammie ou a espiritualidade de Annie. Coogler se utiliza disso em sua história para traçar um paralelo direto com o que o processo colonizador fez — e ainda faz — com a cultura de corpos marginalizados, com o que a cultura hegemônica dos Estados Unidos fez com o blues, o jazz, o rock e diversas outras manifestações culturais de origem africana no país.

Mas, assim como o blues resistiu às influências da colonização e permanece vivo até hoje, a comunidade preta resiste — e Pecadores é símbolo direto dessa resistência. Uma obra que, assim como a música de Sammie, possui o poder de romper as barreiras entre passado, presente e futuro e nos conecta com o que têm de mais sagrado na existência humana: a expressão artística.

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