
Bugonia é menos bizarro do que deveria ser
Por: Caio Sena
Bugonia é a mais recente obra do diretor grego Yorgos Lanthimos, conhecido por trabalhos bem premiados como A Favorita (2019) e Pobres Criaturas (2023), filmes que renderam o Oscar de Melhor Atriz para suas protagonistas, Olivia Colman e Emma Stone, respectivamente.
A nova obra do diretor grego é uma releitura norte-americana do longa sul-coreano Jigureul Jikyeora! (Save The Green Planet!) de Jang Joon-hwan. A história acompanha um homem e sua namorada que sequestram o CEO de uma empresa farmacêutica e passam a realizar “testes” com ele por meio de torturas. Eles acreditam que o executivo é, na verdade, um alienígena vindo de uma outra galáxia, enviado com objetivo de dominar o planeta terra — e que, ao fazerem isso, estariam salvando a humanidade.
Aqui em Bugonia a trama principal da obra original se mantém, com algumas pequenas alterações, a narrativa se desenvolve mostrando a vida monótona de Teddy, encarnado por Jesse Plemons, um conspiracionista paranoico, e de seu primo Don, interpretado por Aidan Delbis, que são apresentados inicialmente como apicultores amadores.
Durante seu trabalho Teddy começa a enxergar alguns acontecimentos incomuns, como abelhas abandonando suas colmeias. Com isso ele passa a usar a internet como meio de tentar entender essa situação e chega a uma conclusão um tanto diferenciada: ele acredita que o problema disso tudo são alienígenas vindos de uma galáxia denominada Andrômeda. A partir disso, ele convence seu primo Don que aparenta ser alguém com uma deficiência cognitiva e é convencido a passar por várias preparações intensas como a castração química, como forma de impedir que impulsos sexuais afetem sua “missão”.
Em meio aos treinamentos e pesquisas, Teddy acredita ter encontrado um desses alienígenas: Michelle Fuller, vivida por Emma Stone, uma famosa CEO, dona de uma empresa farmacêutica muito conhecida chamada “Auxolith”. Com isso, ele começa a preparar um plano para capturá-la. Michelle é uma mulher extremamente bem-sucedida, tendo seu rosto estampado em diversas capas de revista, como a Forbes e a Times. A narrativa momentaneamente foca em sua rotina, mostrando como a empresária lida com as situações do seu trabalho, enquanto a obra vai nos mostrando o quão importante ela é e quanto não se importa com a exploração de seus trabalhadores.
Após mais um dia corrido no trabalho, Michelle pega seu carro de luxo e se encaminha para sua mansão. Ao chegar lá é surpreendida por dois “bandidos”: Teddy e Don surgem para tentar sequestrá-la, e assim começa um momento tenso de combate onde a empresária, que é treinada em defesa pessoal, começa acertá-los com socos e chutes, tentando escapar e entrar em sua casa de todos os modos. Após uma luta intensa e uma sensação de ter conseguido fugir, Michelle percebe que foi acertada por um sedativo e acaba desmaiando. Ela então é levada pelos dois primos que, no caminho, raspam sua cabeça, pois Teddy acredita que os aliens podem ser rastreados pela sua nave-mãe através do cabelo.
A partir disso, a história vai se desenrolando com Michelle sofrendo inúmeros tipos de torturas criadas por Teddy, que é o comandante dessa operação, enquanto tenta escapar e provar que não é uma alienígena — até certo ponto.
A releitura de Yorgos Lanthimos tenta trazer a história para um contexto mais atual. Teddy é um funcionário precarizado de um dos armazéns da Auxolith, trabalha empacotando produtos da empresa. A vivência nesse ambiente exploratório e a percepção do quão descartáveis eles são dentro desse sistema, alimenta ainda mais suas paranoias.
Essa situação mostra que a ideia de Michelle ser um alien não veio do nada, Teddy pensa que alguém capaz de sustentar um sistema cruel assim, ignorando a realidade de pessoas comuns, não pode ser considerada humana. Nesse sentido, o diretor parece tentar fazer uma crítica a todo esse sistema.
O problema é que essas ideias não são realmente aprofundadas. A investigação, que é um dos pontos fortes na versão original, aqui é fraca e quase descartada. O passado e o abandono social que Teddy sofre, assim como a crítica ao sistema aparecem, mas não são devidamente desenvolvidas — parece que estão lá só por estar. Por ser um remake, para mim é inevitável não acabar comparando as duas obras e enxergando essas diferenças. A obra sul-coreana desenvolve e mergulha muito mais nos conflitos humanos e psicológicos, enquanto, na releitura, muito disso se mantém apenas nas entrelinhas.
No quesito atuação, sinto Jesse Plemons como o destaque. Mesmo já estando acostumado a interpretar personagens meio bizarros, aqui ele faz isso de maneira ótima, trazendo um Teddy paranoico e desconfortável na medida certa. Emma Stone também entrega uma atuação bem sólida, mesmo que não chegue perto do nível visto em vários dos seus outros trabalhos — que acontece também por não precisar exigir tanto. Isso acaba sendo mais um problema da adaptação do que da atriz em si.
O estilo de filmagem se mantém em um padrão característico, com enquadramentos desconfortáveis que criam uma sensação de estranheza nas cenas. A trilha sonora também se faz bem presente, e em momentos específicos, intensifica a tensão do que está sendo mostrado. Em certas ocasiões, takes de cenas em preto e branco surgem na tela, funcionando quase como uma forma de representar o que passa na mente de Teddy.
Esse conjunto de escolhas de montagem e direção, bebe da fórmula de bizarrice que já se tornou clássica na filmografia do diretor grego. Considero isso uma das poucas coisas que realmente me agradam na obra. Mas admito que sou suspeito de falar, já que sempre tive uma certa fascinação pelo estilo de cinema de Lanthimos e por filmes considerados meio estranhos.
No fim, Bugonia não alcança seu potencial e parece uma versão enfraquecida de Save the Green Planet!. Essa obra suaviza tudo que torna a versão original tão intensa e marcante. Por conhecer muitas outras obras de Yorgos Lanthimos, consigo enxergar seu tom no filme, mas também percebo que ele poderia ter feito algo mais ousado. No papel essa combinação de filme bizarro com diretor igualmente bizarro parece ser perfeita, mas na prática, vemos um trabalho meio insosso e pouco corajoso — o que é meio estranho de perceber, conhecendo a capacidade do diretor de levar suas críticas até o limite.
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