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Marty supreme: sonhe alto
Por: Rayane Ferreira
Marty Supreme, primeiro longa-metragem que Josh Safdie dirige sozinho, é estrelado por Timothée Chalamet e conta com um ritmo frenético. Essa celeridade é muito parecida com a presente em Jóias Brutas (2019), mas ao passo em que o filme anterior proporciona uma agonia pelas coisas não resolvidas, Marty Supreme, desde o início, pendula entre o choque das ações do protagonista – como apontar uma arma para conseguir dinheiro – e a devastação que o personagem acarreta em todas as relações e ambientes.
Marty Mauser possui a confiança de quem nunca precisou lidar com as consequências. Não há espaço para a presença efetiva do personagem em nenhuma de suas relações. No ambiente doméstico, essa ausência se dá tanto física quanto emocionalmente. Quem pode deixar de dar satisfação à patente mais alta na configuração doméstica, como, por exemplo, a figura materna? quem pode ter o privilégio de não pensar no amanhã? O abandono das responsabilidades comumente acontece, como infelizmente sabemos, devido a comovente, audaciosa e voraz busca masculina pela fuga constante de comprometimento.
Aí desponta uma característica peculiar e majestosa do longa: a trilha sonora, montagem, direção de fotografia e demais elementos que o perfazem estão síncronos de tal maneira que endossam a narrativa de maneira fenomenal. Uma das músicas presentes no filme é Forever Young, famosa composição de 1984 da banda alemã Alphaville, ela apresenta os seguintes versos: “É tão difícil envelhecer sem ter um motivo/ Eu não quero perecer como um cavalo moribundo/ A juventude é como diamantes ao sol/ E diamantes são eternos”. O não projeto de futuro é justificado pelo grande sonho de ser mais e pelo fato de ser jovem. Daniel Lopatin é o compositor responsável por assinar a trilha. Segundo a Rolling Stone, Lopatin afirma que “a música surgiu de uma obsessão por ritmo, leveza e movimento”, a partir do tempo no qual o filme é montado, o uso de sintetizadores em tela ampla e hardwares táteis dos anos 80 dão uma textura, ora onírica, ora brutal ao filme.
Sonhar não é errado. Almejar ser um dos grandes revela, no mínimo, alguém com muitas aspirações. Esse discurso, inclusive, está para além de Marty Supreme. Após vencer o prêmio de Melhor Ator no SAG Awards 2025, Timothée Chalamet, que interpreta Bob Dylan em “Um Completo Desconhecido” complementa sua fala dizendo almejar grandeza e ser um dos maiores. Mas o longa revela uma faceta cruel do sistema: a falta de oportunidade e a busca constante de colher os proventos de um esforço monumental que ele constantemente precisa fazer. Não basta ter habilidade. A meritocracia é uma farsa e é preciso contar com a sorte. Por isso a confiança inabalável de Marty é contagiante, porque mesmo sabendo que é um ninguém para os outros, ele sabe mensurar – às vezes até demais – o próprio valor e acaba agindo como se tivesse poder, principalmente econômico. Mesmo tendo o privilégio de ser um homem branco, Mauser é pobre e foge constantemente disso.
Koto Kawaguchi, ator japonês e atleta de tênis de mesa, interpreta o principal rival do protagonista, Koto Endo. Na última disputa com Endo, já finalmente no Japão, é importante atentar que o jogo tão aguardado por Marty revela não apenas as habilidades dos jogadores, mas um cenário pós-guerra que conta com o poderio americano não apenas na economia, mas na vestimenta. Como apontado pelo influenciador de moda Giuliny Shauer “A moda oversized nasceu no Japão não por uma tendência, mas sim por uma necessidade”, tendo em vista que os jovens tiveram que adaptar os tamanhos maiores das peças que chegavam ao país a partir de marcas de fora. A camiseta de Endo, cujas mangas chegam aos cotovelos, lembra o estilo oversized, o que contrasta com a clássica roupa de escritório de Marty: camisa de botão e gravata. Revelando que, para além de uma simples partida, o que está em jogo é a honra de uma nação devastada, humilhada e ocupada pelos EUA no contexto pós-guerra.
Ao final do filme, após favorecer todas as partidas de pingue-pongue que se obstina – e consegue – participar, Mauser retorna à Nova Iorque e encara o que nega desde o início do longa: a sua paternidade. É curioso que o personagem não ganha nenhuma competição formal contra Endo, mas é claro o contentamento de Marty ao vencer a disputa, pois com base em todas as intempéries vividas até chegar ao Japão, a vitória é muito mais simbólica do que oficial. E esse sentimento simbólico de conquista se estende para a “família às avessas” que acaba construindo. Para além do campeonato mundial, o troféu de Marty Mauser é a realização do sonho americano defendido pelo American Way of Life: a família.
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