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O Thriller humanista de Foi Apenas um Acidente

Por: Gabriel Bogéa

É de praxe que, no cinema iraniano, o seu núcleo central seja a moral que cerca, de forma incessante, seus personagens do ínicio ao fim do filme, criando uma atmosfera ambígua entre os sujeitos filmados, subvertendo a ideia clássica de narrativa, em que se reconhece o vilão e o herói da trama. Em “Foi apenas um Acidente” (2025), do Iraniano Jafar Panahi, a convenção do realismo típico do movimento é formalmente tensionada por um suspense que faz do cotidiano um campo de tensões constantes.

 

Preso em 2010 e 2022 acusado de propagar contra a República Islâmica do Irã, o vencedor da Palma de Ouro de 2025 foi novamente condenado por seu país. Mesmo assim, Panahi não abandonou sua postura crítica em relação ao governo de sua terra e, ainda sob ameaças e punições, trabalhou clandestinamente para realizar filmes marcados por seu caráter contestador, firmando-se como um cineasta ativista em busca de seus direitos como cidadão. Foi assim com as obras “Táxi Teerã”, “No Bears”, “The Circle” e, mais recentemente, com o filme que fez nascer este texto, “Foi Apenas um Acidente”.

 

O filme inicia com um acontecimento ordinário: após atropelar acidentalmente um cachorro, uma família precisa parar o carro em uma oficina mecânica. O dono da oficina, Vahid (Vahid Mobasseri), reconhece um ruído vindo do motorista — o pai da família —, o que causa uma nostalgia assombrosa. O som que vem da prótese do homem, anos antes, ecoava na sala onde foi torturado quando esteve preso por “atividades antigovernamentais”.

 

Convencido de que está diante de seu antigo algoz, Vahid decide sequestrá-lo. À medida que tenta confirmar a identidade do homem, a sua certeza vacila. Em busca de respostas, ele reúne outros ex-prisioneiros que também carregam os traumas marcados pelo regime. Confinados dentro de uma van, junto do corpo do monstro capturado, eles confrontam o suspeito – e a si mesmos.

 

Panahi transforma a van em um tribunal improvisado da memória. Cada personagem carrega as suas próprias feridas, e a identificação do suposto algoz deixa de ser um fato objetivo, e vai se construindo um dilema emocional e ético. Desde o início, “Foi Apenas um Acidente” estabelece a questão moral como reflexão central, explorando a legitimidade do assassinato e da tortura contra o carrasco que, agora, se encontra aprisionado — métodos utilizados por ele quando os sequestradores eram suas vítimas.

 

A combinação da investigação e dilema ético cria um Thriller Humanista, já visto na obra “Procurando Elly”, de Asghar Farhadi, um dos grandes cineastas do Novo Cinema Iraniano. Assim como na obra de Farhadi, Panahi busca um esvaziamento gradual do suspense, construindo uma abordagem que investiga a humanidade dos personagens a partir da observação de como eles lidam com a violência marcada pelo passado e que, agora, retorna diante de seus olhos e de suas mãos.

 

O filme de Panahi se destaca na construção dos gestos dos personagens que, por mais banais que pareçam, têm suma importância para o valor moral que a obra carrega. As simples ações desses personagens caminham para a ambiguidade das complexas relações humanas, escapando da lógica do vilão e do herói, mas sem inocentar e defender os lados, deixando a interpretação como tarefa do espectador.

 

O uso rigoroso da mise-en-scène em locações reais, os elementos de luzes práticas e uso do som ambiente como a trilha sonora principal consolidam uma atmosfera angustiante para a película. Jafar Panahi evita uma encenação que possui elementos ornamentais do drama tradicional, produzindo um tom quase documental.

 

A obra, por ter consciência de suas restrições materiais, impostas pela condição clandestina, transforma as suas limitações em uma estratégia estética que consolida uma narrativa profundamente humana, que recusa soluções fáceis e propõe reflexões sobre justiça, política e vingança.

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