Por: Karina Moraes

Uma Batalha Após a Outra: A revolução é um prato que nunca esfria
Lutar por quem amamos e o que acreditamos é nosso principal ato de resistência
O queridinho da Academia de Hollywood é ele. Com 13 indicações à 98ª edição do Oscar (incluindo melhor Filme, Direção, Ator e Atriz Coadjuvante, sendo o segundo longa mais indicado da premiação, atrás apenas de “Pecadores”, o drama que mistura ação e política (e leve comédia até) já é um dos favoritos da temporada desde sua estreia em setembro de 2025.
Dirigido pelo aclamado Paul Thomas Anderson, com trabalhos como “Magnólia” e “Boogie Nights”, também levou o protagonismo no Critics Choice Awards, saindo com estatuetas de Melhor filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado.
A história que levou à aclamação “A violência revolucionária é a única saída”.
A frase de Teyana Taylor (Perfidia) resume a força e a profundidade da discussão que essa obra traz. Com inspiração no romance Vineland (1990), de Thomas Pynchon, temas como revolução, conspiração e cultura pop com um toque de ação de faroeste tipicamente estadunidense são abordadas no drama sobre a vida de revolucionários contra o sistema opressivo dos Estados Unidos. Pat, que depois se torna Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) são dois dos rebeldes pertencentes ao grupo de revolução French 75, que explodem tudo, ameaçam e matam militares e autoridades conservadoras, lutando contra a xenofobia, o racismo, misoginia e tudo que há de errado naquele país.
Umas das questões gerais está nos obstáculos de imigração, especialmente mexicana, ao território estadunidense. A direção de imagem não era inocente ao assemelhar absurdamente os espaços com imigrantes capturados com a realidade de acontecimentos recentes e reais do país. Chega ser ousado (e muito instigante) colocar a temática em destaque em uma premiação dos EUA, tão noticiado nos últimos dias pelos protestos contra as ações agressivas e militarizadas pela violência da política ICE que “detém” a imigração ilegal, deporta e aprisiona imigrantes em centros de detenção que mais parecem campos de concentração nazista. Filme com cenas tão legítimas que era como observar as filmagens do jornal matinal.
Perfidia engravida e se torna mãe de Charlene, que logo depois se torna Willa (Chase Infiniti), por razões de segurança, assim como Bob. Abro espaço para ressaltar as cenas de Teyana Taylor mostrando as dores, inseguranças e limitações que a maternidade pode trazer dentro de uma sociedade estruturalmente machista. Enquanto revolucionária, agora sentia sua liberdade política, social e sexual dentro de uma família comum, não nas ruas, salvando pessoas e “fazendo sua justiça”.
As atitudes de sua personagem podem ser facilmente vilanizadas nesse trecho, mas ao se sentir perdida vendo sua revolução de vida sendo reduzida, é fácil demais enlouquecer, e com certeza não é que ela não amava sua filha, mas uma trajetória até familiar ser cortada assim amedronta a ela e emociona quem assiste. Mesmo assim, sua complexidade de personagem também me fez a observar como paralelamente inconsequente e impulsiva, que desencadeia em um dos maiores plots do longa.
O French 75 em uma de suas missões antigas se depara com a crueldade do clássico militarismo estadunidense representado pelo Coronel Steven Lockjaw (Sean Penn). Sua obsessão objetificante por Perfidia, e ainda pior, pela Christmas Adventurers Club (Clube dos Aventureiros Natalinos), uma sociedade secreta de conspiração à supremacia branca é uma sátira muito inteligente sobre o outro lado de diversos empresários que cultuam pensamentos racistas, antissemitistas e extremistas (mesmo alguns ainda fazendo o contrário do que pregam nesses grupos por desejos sexuais e/ou financeiros).
Ditos como “seres naturalmente superiores”, o coronel tem sua vida vasculhada, e comete atitudes inimagináveis para apagar o registro de uma filha não assumida, fruto de uma relação interracial mantida em segredo, para ser aceito no grupo. É como se Paul Thomas Anderson colocasse câmeras escondidas em muitos rostinhos famosos dos Estados Unidos que pensei que fariam (ou fazem isso) e revelasse esses arquivos no cinema de tão realístico.
Com a maioria já afastada das aventuras revolucionárias nas ruas, os antigos French 75 precisam se reunir novamente 16 anos depois para resgatar Willa de um sequestro e Bob de ser preso por seus crimes antigos, enquanto encontram um velho inimigo da juventude combativa. Por meio de códigos e planos de coletividade, percebe-se que a revolução nunca saiu de suas almas mais velhas e acende em Willa quase sem esforço, mostrando que a manutenção da memória, como aquela feita por Bob para ela no filme, é crucial para que a luta permaneça viva.
Há diversos detalhes que nos relembram o motivo do extermínio de revolucionários e a condecoração de militares por operações contra o “caos”. Um detalhe que chamou a atenção está na cena de Bob Ferguson, que conversa com uma professora na escola de Willa, puxando conversa sobre ensinar história nas escolas e cita alguns nomes da história norte-americana presentes em quadros na sala que estavam, como Roosevelt, Lincoln e Benjamin Franklin e comenta: “espero que contem as histórias corretas e completas do mundo aqui” e a professora responde: “até citamos, mas não entramos em detalhes”.
Uma cena com silêncio ensurdecedor quase de sitcom que nos faz refletir ironicamente sobre a manipulação do saber civil sobre sua condição e história sociopolítica desde a educação infantil para que saibamos o menos possível e sejamos mais manipuláveis e conformistas.
A estética meio faroesteana me cativou mais do que imaginei e a trilha sonora do jazz ao country é incomparável, músicas que mergulharam na aflição, esperança, insegurança e resistência dos personagens. No entanto, ainda senti que algumas pareciam ter sido colocados em momentos incorretos, pode acontecer de você estar em uma cena super tensa e o background ser um som que seria utilizado em uma comédia do Adam Sandler pré-piada.
Senti também que muitos coadjuvantes tiveram maiores desenvolvimentos até que protagonistas, mistura de bom e ruim, pois com DiCaprio como protagonista, prefiro conhecer os outros. Uma dose de complexidade para Deandra (Regina Hall), JunglePussy (Shayna McHayle) e até mesmo possíveis controvérsias de outros participantes do Christmas Adventurers Club dariam um toque especial nessa interação entre a construção do personagem e a compreensão do espectador, apesar de saber que isso renderia mais minutos de enredo que já foram um pouco complicados de prender-me na tela sem pausas por 180 minutos.
Falando sobre história e aparição, também faço uma ressalva indissociável para mim, que nos tempos mais recentes, venho sentindo preguiça de reservar tempo para assistir longas com protagonismo do atual Leonardo DiCaprio, em que nesse caso, a representação, apesar de ser moldada para identificar um revolucionário forte, porém inseguro, perdido e também inconsequente, deixa a parte da comédia em um lugar distante e se reserva mais em uma postura caricata de atuação de DiCaprio, diria não apenas em Uma Batalha Após a Outra.
Eu sintetizaria a obra na palavra “força”, senti que o longa estudou toda a semiótica verbal e visual de grupos de resistência e a necessidade de seguir de cabeça erguida apesar das perdas e cicatrizes que a repressão governamental e militar podem deixar. A revolução, em diversos países e em diferentes pautas de luta, precisou ser vivida e mantida assim como o filme retrata, por meio de códigos e sentidos atribuídos, assim como religiões se mantiveram pelo sincretismo ou músicas na Ditadura Militar no Brasil se mantiveram pelo disfarce de sentido e o jogo de palavras correto, sendo salvos por linguagens secretas pré-estabelecidas, um gesto ou por uma simples história de esperança contada sobre nossos antepassados.
A revolução apenas muda de motivo (e às vezes nem tanto), de participantes ou locais, mas sua essência precisa ser mantida e incentivada. Resistir e encarar regimes de repressão, ações de violência e incitação do ódio são indispensáveis para que mudanças reais se concretizem, mesmo após décadas ou séculos, nos mostrando que nunca se para de lutar, em que todo e qualquer ser humano não dominante de meios de produção e/ou dominação social precisa se autoavaliar e se unir, “devolver o trauma”, para derrubar inimigos que no fim, são os mesmos.
Por: Junior Wanzeler
Por: Anna Mescouto



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