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Em Sirât, o deserto vira purgatório
Por: Samantha Costa
No deserto marroquino, dezenas de caixas de som são organizadas com cuidado. Empilhadas umas sobre as outras, o paredão que formam é o único ponto de contraste na árida imensidão do deserto. Ali, no meio do nada, o som se torna altar — capaz de atrair milhares de pessoas em direção ao vazio.
É nesse cenário que somos introduzidos a Sirât, de Óliver Laxe, representante da Espanha ao Oscar deste ano na categoria de Melhor Filme Internacional e também indicado a Melhor Som. O filme estreou na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2025, onde conquistou o Prêmio do Júri.
Naquela multidão em transe, devota às raves clandestinas, encontramos duas figuras que não pertencem. Luís (Sergi López) chega ao deserto acompanhado do filho pré-adolescente, Esteban, e de sua cachorra, Pipa. Longe de casa, os dois percorrem o circuito de festas pelo deserto em busca de alguém que pode ou não estar ali: Mar, a filha mais velha de Luís, desaparecida há cinco meses e frequentadora assídua das raves da região.
A maioria dos que estão ali são europeus: espanhóis, franceses, ingleses. Nômades que atravessam o Mediterrâneo em busca do êxtase em terras estrangeiras, portanto mais leves para si. Em trailers, caminhões e vans envelhecidas, formam uma comunidade alternativa que vive em função da próxima festa. Sempre mais distante, sempre mais adentro do deserto.
É nesse contexto que Luís e Esteban cruzam o caminho de um pequeno grupo de viajantes que segue rumo a uma nova rave prometida em algum ponto remoto do Saara. Desconfiado, mas sem muitas alternativas, o pai decide acompanhá-los, movido pela possibilidade, ainda que vaga, de reencontrar a filha.
O que se desenrola inicialmente é um atípico road movie. Pai e filho passam a integrar um grupo de deslocados da norma social, avessos ao tradicionalismo, que encontram uns nos outros uma forma de família. Com o passar dos dias, cria-se afeto. Mundos distantes convergem. Há algo de surpreendentemente terno nessa comunidade improvisada, como se, por um momento, fosse possível suspender o resto do mundo.
Mas o mundo permanece à espreita. Logo no início, antes de Luís e Esteban se juntarem ao grupo, a rave em que estavam é interrompida por um pelotão de soldados marroquinos que ordena o esvaziamento do local. Nunca fica clara a natureza do conflito, mas sabemos que há uma guerra. Ouvem-se rumores de uma Terceira Guerra Mundial. Um rádio chega a transmitir atualizações, logo desligado por um dos viajantes. A fuga da realidade é deliberada: viver de festa em festa é uma recusa consciente do mundo.
Até que ele emerge, e o filme declara uma ruptura. Um acontecimento brutal altera radicalmente o tom da narrativa e desloca a jornada para um território muito mais sombrio. É nesse momento que o longa revela com mais clareza suas ambições, e o título ajuda a compreender essa transformação. Na tradição islâmica, Sirât é a ponte estreita que separa o inferno do paraíso. Sob essa luz, a travessia pelo deserto assume contornos alegóricos: o grupo parece avançar por um território de provação, onde cada passo pode significar salvação ou queda.
Ainda assim, a forma como o filme conduz sua grande virada, abrupta e intensa, cria um efeito ambíguo. Não é que a metáfora não funcione. Ela funciona. O problema é que, depois de sustentar essa dimensão simbólica com certa sutileza ao longo do percurso, o filme passa a materializá-la de forma literal demais. A relação entre fuga, guerra e inevitabilidade ressoa, mas a transição para esse registro mais explícito acaba soando cortante.
No fim, Sirât é um filme que nos coloca diante de algo maior e contemporâneo: a impossibilidade de existir à parte do mundo, ainda quando tentamos correr em direção ao nada. Mesmo com escolhas narrativas que por vezes soam bruscas, a travessia proposta por Laxe deixa uma impressão persistente: a de que fugir do mundo talvez seja apenas outra maneira de reencontrá-lo.
Por: Junior Wanzeler
Por: Anna Mescouto



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