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Análise de Valor Sentimental: quando a memória familiar se torna encenação
Por: Thiago Figueiredo
Na opinião deste que vos escreve, não haveria forma mais adequada de dar início a uma singela análise sobre o longa Valor Sentimental (2025) sem citar o diálogo final entre as irmãs Nora e Agnes. Em um dos momentos que antecedem o desfecho do filme (sem dar spoilers), as personagens, em um enquadramento intimista e pessoal, conversam sobre infância, passado, trauma e amor fraternal. Agnes questiona a irmã mais nova sobre como esta conseguiu estruturar uma família nos moldes convencionais que se espera: casamento, filhos, casa própria etc., sabendo que elas duas cresceram no mesmo ambiente problemático e conflituoso.
Na resposta de Agnes, o filme revela uma camada particularmente sensível da reflexão proposta sobre memória e vínculos familiares. A personagem reconhece que sua infância também foi atravessada por dificuldades e ausências. No entanto, ao contrário do que Nora parece presumir, Agnes não interpreta esse passado apenas como uma experiência paralisante. Para ela, a presença da irmã funcionou como um ponto de apoio fundamental, isto é, uma espécie de refúgio afetivo dentro de um ambiente familiar instável.
Em outras palavras, se ambas compartilharam as mesmas circunstâncias adversas, a forma como cada uma elaborou essas experiências acabou sendo distinta. Aqui, o diretor Joachim Trier condensa toda a tensão emocional que permeia o longa, a partir de um desabafo sincero e cru, no qual há uma cumplicidade afetiva que desabrocha em uma construção narrativa belíssima.
Com um elenco de peso, composto por nomes como Renate Reinsve, Stellan Skarsgård e Elle Fanning, o cineasta norueguês retorna aos circuitos cinematográficos mundiais quatro anos após A Pior Pessoa do Mundo (2021), novamente ao lado de sua recorrente e talentosíssima protagonista, Renate. Ao longo de 2h13min, somos guiados por um drama familiar com o toque escandinavo autoral do diretor. O enredo gira em torno de um pai ausente, cujo casamento ruiu em um divórcio litigioso, que tenta se reaproximar das filhas adultas.
Esse retorno, no entanto, não acontece em um vazio emocional: ele é precipitado também pelo falecimento da mãe das meninas, a psicoterapeuta Sissel, sua ex-esposa, evento que reabriu antigas feridas e alterou a dinâmica familiar construída ao longo dos anos de afastamento.
Embora escolha uma temática que nada possui de inovadora — quer dizer, o que há de revolucionário em abordar problemas com pais e relações mal resolvidas que perpassam anos e o crescimento da gente? —, Trier decide trilhar um caminho mais singelo e incômodo: o da ambiguidade. Mas que ambiguidade seria esta especificamente? O centro da narrativa parte de Gustav, interpretado por Stellan, um cineasta que reaparece na vida das filhas depois de anos de distância.
Ainda que possa prevalecer, neste primeiro momento, o estabelecimento de um “vilão”, não é exatamente isso que ocorre, mas tampouco Gustav se aproxima de uma figura redimida. É um personagem marcado por contradições: carismático e manipulador, afetuoso e egocêntrico. O gesto que dá o pontapé na história — transformar a própria história familiar em filme — já carrega uma tensão ética inevitável: até que ponto a arte pode se alimentar da dor das pessoas mais próximas, sobretudo em se tratando de um distanciamento caracterizado pelas filhas, que mal o reconhecem como figura presente e íntima?
Há uma abordagem que escancara, ainda que de maneira sutil, a estranheza e a quase completa falta de intimidade entre pai e filhas: Gustav, ao chegar à casa que outrora pertenceu a toda a família no dia em que ocorre um encontro entre amigos e pessoas próximas para recordar a recém-falecida Sissel, parece ocupar aquele espaço mais como um visitante deslocado, quase intruso, do que como alguém que, em tese, também faria parte daquele núcleo afetivo, evidenciando o distanciamento emocional que os anos de ausência produziram entre ele e as filhas. As reações de Nora e Agnes explicitam todo o estranhamento que surge, com os afetos retraídos, como se estivessem abraçando um desconhecido.
A paleta de cores sóbria e os closes nos rostos e olhares são marcas recorrentes na filmografia de Trier, e aqui não é diferente: cada enquadramento fala por si, cada cena ou enfoque no ambiente conta-nos detalhes sobre a trajetória e os traumas que constituem a psique dos personagens em tela. São escolhas visuais que funcionam como extensões do estado emocional das figuras que habitam a narrativa, a exemplo da casa da família, que adquire um ar quase metafísico e atemporal. Naquele espaço de convivência e construção de memória, cada sentimento, cada palavra não dita e cada questão não resolvida tomam forma e perambulam pelos cômodos, instigando-nos a refletir sobre as vidas que dançam diante de nossos olhos. Por meio de elementos como os corredores vazios, os objetos e pertences espalhados, a trajetória familiar daqueles indivíduos pulsa e diz muito mais do que o aparente.
Os silêncios prolongados, os enquadramentos fechados e a atenção minuciosa aos gestos cotidianos constroem uma atmosfera de intimidade que permite ao espectador perceber aquilo que muitas vezes permanece não dito nos diálogos. Surgem, assim, autênticos campos de leitura emocional, nos quais pequenas variações de expressão ou de luz revelam camadas profundas de ressentimento, afeto e memória.
No que concerne à adoção da metalinguagem como elemento fundamental do enredo, considero-a minha parte favorita do filme. Ao decidir transformar a própria história familiar em matéria-prima para um novo projeto cinematográfico, Gustav introduz na narrativa a ideia de um “filme dentro do filme”, recurso esse que amplifica as tensões já existentes entre memória, arte e responsabilidade emocional.
É nesse contexto que surge a personagem interpretada por Elle Fanning, atriz convidada a protagonizar a obra que Gustav pretende dirigir. Nessa esteira, a presença dela funciona quase como um espelho distorcido da realidade das próprias filhas do diretor, uma vez que, ao encenar uma versão ficcionalizada daquela história familiar, a personagem evidencia o desconforto provocado pela tentativa de converter experiências íntimas, circunscritas por ausências, ressentimentos e lembranças conflitantes, em espetáculo artístico.
Desse modo, o procedimento metalinguístico opera como uma provocação ética que atravessa todo o filme de Joachim Trier, indo além de um mero recurso narrativo conveniente e alegadamente sofisticado, sendo, em última instância, o seguinte questionamento: até que ponto o cinema pode reivindicar para si o direito de recontar, reinterpretar e até reencenar as dores de quem ainda convive com elas?
Em Valor Sentimental, a fronteira entre criação artística e exposição emocional torna-se deliberadamente incômoda, e é justamente nessa fricção que o filme encontra uma de suas camadas mais interessantes. Segue outra obra indispensável do cinema norueguês, outro estudo de caso muito vívido que ultrapassa o mero drama familiar, trazendo consigo uma carga simbólica capaz de dialogar, simultaneamente, sobre família, amor, trauma e reconciliação.
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