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La Voce di Hind Rajab_ Il film che ha scioccato Venezia.jfif

A Voz de Hind Rajab: Quando a vida supera a arte

Por: Victor Evangelista

Ao ser questionada sobre a motivação de escrever os livros-reportagens de crimes e tragedias como “Holocausto Brasileiro e “Todo dia a mesma noite”, a jornalista mineira Daniela Arbex respondeu que se considera uma “construtora da memória coletiva” . Tenho me inspirado nestas palavras da Arbex no que diz respeito sobre às minhas inspirações profissionais enquanto futuro jornalista; auxiliando ainda mais nessa jornada de colaborar com a memória coletiva e com compromisso social. É uma visão que pode ser romântica, mas acredito nela para enxergar a beleza na vida.

 

Sei que a arte - seja qual for o tipo-, não tem que ter tal compromisso. Um filme não precisa ter mensagem para propagar e estou bem com isso. Mas ao assistir o longa tunisiano “ A Voz de Hind Rajab” da diretora Kaourther Ben Hania, não consigo não pensar que por mais que esse não seja um objetivo primordial, o cinema claramente tem o poder de nos fazer permitir entender este mundo e as pessoas que habitam nele. Recentemente, Ben Hania se recusou a receber um prêmio no Berlinale; em seu discurso, ela disse que se recusava a permitir que as mortes se tornem pano de fundo para um discurso educado sobre a paz enquanto acontecimentos tão brutais quanto aqueles que estão acontecendo diretamente em Gaza.

 

Em “A Voz de Hind Rajab”, somos apresentados a uma pequena equipe de voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho, a principal organização humanitária e de socorro médico na Cisjordânia e Faixa de Gaza. A rotina do trabalho é intensa e o espaço do ambiente de trabalho é pequeno e limitado, assim como aos poucos é percebido, os meios e possibilidades de ajuda para aqueles que ligam para a Sociedade em busca de auxílio ou resgate. O elenco é diminuto: apenas 4 atores têm forte presença de tela interpretando personagens que possuem abordagens e perspectivas diferentes de lidar com a situação. Todavia se confluem em único sentimento: o desespero oriundo da ineficácia das autoridades de os amparar na situação.

 

Omar - interpretado pelo ator palestino Motaz Malhees, o mais alterado vocalmente entre personagens - recebe a ligação de uma adolescente, aos prantos informando que o carro de sua família foi fuzilado em um ataque do exército de Israel. A ligação termina abruptamente, deixando Omar transtornado, mas a situação torna-se ainda pior quando ele recebe a mensagem do tio da adolescente, pedindo que ele retorne à ligação. Quem atende é Hind Rajab, uma menina de 5 anos. Como é esperado de alguém em tenra idade, Hind não compreende por completo a situação que está exposta, descrevendo o estado dos seus parentes brutalmente assassinados apenas como se eles estivessem dormindo.

 

A voz da menina que os socorristas estão ouvindo é a voz real de Hind Rajab. Antes do início da ligação, uma cartela alerta que o filme fez uso real das gravações feitas pela equipe do Sociedade. A escolha de usar pode soar apelativa para alguns, mas a compreensão que a voz dessa criança, essa menina presa dentro de um carro com tios e primos mortos, desesperada com os barulhos de tiros dos fuzis do exército, rezando e implorando pelo calor do abraço de sua mãe é a voz real de Hind Rajab. Devido a isso, o filme ultrapassa a barreira de um cinema pautado pela técnica e se torne um relato, um testemunho sobre uma criança que teve sua vida ceifada por um Estado Neofascista.

 

A ligação faz que o ambiente diariamente tenso, piore; Omar se revolta com seu chefe, Mahdi, o criticado por não fazer o suficiente. Em primeiro momento, nós somos levados a concordar com o Omar, mas logo se percebe que ambos estão afetados da mesma maneira: são feitos de reféns de um sistema que parece não se importar o suficiente. Seriam necessários apenas 9 minutos para resgatar Hind, mas a burocracia os impede de prosseguir com a missão. Os enquadramentos do filme são claustrofóbicos, é impossível não ficar agoniado com as poucas mudanças de cenário. As atuações aqui são límpidas e contidas, mas sensíveis e humanistas; em especial, me comove o trabalho da atriz Saja Kilani, no papel de Rana, a voluntária que passa mais tempo com Hind ao telefone. Sua voz é suave e doce, tranquilizando e rezando com a menina, mas é perceptível em seu tom e seu olhar, o pânico e o sofrimento que essa experiência está lhe causando.

 

Por fim, após horas de negociações, a emergência é liberada para ir socorrer Hind Rajab. O que aconteceu depois é mais um capítulo de uma tragédia, de um crime que tem perdurado dia após dia. Ao escrever essa resenha, pouco me atentei com a questão dos spoilers: Eles normalmente pouco me importam, entretanto aqui sinto que não há a necessidade de tratar do filme como se fosse uma história que deixa expectativas sobre o encerramento, quem dera existisse outras possibilidades de final. Ao término da sessão, o silêncio se tomou por toda a sala do (Cine) Líberouma das mais tradicionais salas de cinema em Belém-, olhei ao redor e havia umas 30, talvez quase 40 pessoas naquela sessão das 3 da tarde, eu mirei indiretamente em seus rostos, disfarcei o máximo que pude; algumas pessoas com olhos chorosos, as lágrimas secas sobre a pele da bochecha, rostos de expressões sóbrias. Gostaria de ter mais coragem e perguntar para meus colegas de sala, se eles também sentiam se atravessado por um sentimento de culpa e impotência, porém apenas fui embora com a voz de Hind sussurrando em meu ouvido.

 

“A Voz de Hind Rajab” concorre ao Oscar na categoria de “ Melhor Filme Estrangeiro”, sendo ofuscado na disputa dos dois favoritos “Valor Sentimental” e “ O Agente Secreto”. Gostando muito do primeiro, mas tendo um sentimento de apatia pelo segundo, acredito que o filme possa surpreender e vencer, apesar de ser a minha escolha na categoria. Entretanto, quero e gosto de imaginar que a premiação do filme chegue a mais pessoas e que elas se conscientizem, se entristeçam e se revoltem e logo em seguida se organizem para impedir que isso se repita. Acima de tudo, para lembrar que Hind Rajab tinha cinco anos, gostava de brincar, desenhar e ir à praia assim como eu e assim como você gostou um dia.

 

Do rio ao mar, a Palestina será livre.

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